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Sergio Aleixo
Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Escritor e palestrante espírita. Presidente da Associação de Divulgadores do Espiritismo do Rio de Janeiro.
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SUMÁRIO

Frontispício

Prefácio

Introdução

Parte I

Da Crítica às Razões do Cisma Rustenista

1. O futuro é tudo

2. A postura de Kardec

3. A prova do cisma rustenista

4. As advertências de Kardec e a profecia de Erasto

5. Os critérios kardecianos

6. A Liga do Ensino

7. O rustenismo e a infalibilidade bíblica

8. Jesus não era um agênere

9. Tradutor, traidor

10. O dogma da encarnação pelo espírito

11. O Kardec arrependido da F.E.B.

12. O Kardec verdadeiro de Cairbar Schutel

Parte II

Das Controvérsias e Contradições de Os Quatro Evangelhos

13. O rustenismo e as obras de Chico Xavier

14. Estranhezas do ensino rustenista

15. Um documento normativo febiano

16. Uma grave constatação

17. Não nos devemos calar

18. O rustenismo e o espiritismo laico

19. O espiritismo esotérico

20. Voltemos a Kardec

“[...] o Cristo compreendeu que a sua igreja se assentasse sobre a própria pedra, a fim de ser sólida, do mesmo modo que ordena não tenha o Espiritismo senão uma raiz, para que esta tenha mais força de penetração em toda a superfície do solo, por mais árido e ressecado que seja. Um Espírito encarnado foi escolhido para vos guiar. Submetei-vos com respeito, não às suas leis, pois ele não dá ordens, mas aos seus desejos. [...]. Envolvei-vos na bandeira da civilização moderna: o Espiritismo sob um só chefe, e derrubareis essas ideias esquisitas nas frontes cornudas e de grandes caudas que devem ser destruídas. Esse chefe, cujo nome não direi, bem o conheceis. Está na frente: marcha sem temor às dentadas venenosas das serpentes e répteis da inveja e do ciúme que o cercam; ficará de pé, porque ungimos o seu corpo, para que seja sempre sólido e robusto. Segui-o, então. [...].” (Revista Espírita. Agosto/1862. Sociedade Espírita de Constantina. Espírito: Santo Agostinho.)


PREFÁCIO

Allan Kardec, o insigne codificador do Espiritismo, inspirado nos ditados dos Espíritos superiores, por diversas vezes chamou-nos a atenção para o perigo de aceitarmos sem exame o que nos chega do mundo espiritual. Ressaltou, sempre que pôde, a importância do estudo e do aprofundamento das questões, em nossa incessante busca pela verdade, para que não nos deixássemos levar por concepções fantasiosas e exóticas, sempre oriundas da ignorância acerca das leis naturais que nos regem a todos.

Confirmando este esforço conjunto dos Espíritos verdadeiramente comprometidos com o bem e a justiça, o Espírito Erasto, presente à reunião geral dos espíritas de Bordéus — cidade em que o advogado J.-B. Roustaing estava prestes a desenvolver suas estranhas teses — advertiu acerca da luta que teríamos “contra a turba de Espíritos enganadores”, e que seria necessário nos premunir “contra um perigo”, sendo que este era um dever que lhe cabia.

Da mesma forma, Sergio Aleixo nos brinda com a presente obra, cumprindo com o seu dever de espiritista, preocupado que é, e como todos devemos ser, com os rumos do movimento espírita no Brasil e no mundo. Deixou corajosamente de lado a postura inerme que predomina em nosso meio, que, a pretexto de caridade, fecha os olhos para os desvios, adulterações e tentativas de ridicularização do Espiritismo.

Munido de dados históricos hauridos em fontes fidedignas, como bom discípulo de J. Herculano Pires, Sergio Aleixo utiliza seu grande poder de observação e análise para mostrar que as teses rustenistas (roustainguistas) aportaram no Brasil, depois de ignoradas na França à época de Kardec, como um autêntico “Cavalo de Troia”, que tem por objetivo provocar a cizânia, o cisma em nossas fileiras, justamente como Erasto, em Bordéus, previra que aconteceria, pela ação de “ditados mentirosos e astuciosos, emanados de uma turba de Espíritos enganadores, imperfeitos e maus”.

Nada mais exato, já que, para melhor ludibriarem, os Espíritos que se comunicaram com Roustaing, através de uma só médium, Émilie Collignon, valeram-se, em seus ditados, de nomes venerados: os apóstolos de Jesus, Moisés, etc.

Porém, como os prezados leitores poderão observar, foram e ainda são muitos os artifícios utilizados na tentativa de impor aos espíritas toda uma série de conceitos, ideias e teorias que, além de antidoutrinárias, são absurdas e ilógicas, e que, por diversas vezes, se chocam com a razão e o bom-senso.

Este trabalho de Sergio Aleixo é, portanto, de fundamental importância, como mais um alerta que nos chega, para que possamos separar o joio do trigo em matéria de Espiritismo, ajudando-nos, ao demais, a entender como tudo se passou (e passa) e os meios empregados pelos Espíritos mistificadores e falsos sábios na tentativa inglória de provocar a derrocada do Espiritismo com enxertias que se vão espraiando pouco a pouco, tal qual erva daninha num jardim de flores.

Aproveitemos todos esta oportunidade de estudo e reflexão, de modo que possamos colaborar para a unidade doutrinária a partir do melhor entendimento do Espiritismo em suas bases sólidas, que se assentam na codificação kardeciana. É seguindo este imperativo que o confrade Sergio Aleixo nos presenteia, mais uma vez, com estudos diligentes e questionadores, que merecem, por parte de todos os espíritas sérios, muita atenção e respeito, a fim de que não nos tornemos pedra de tropeço àquilo que nos é mais caro: o Espiritismo.

Artur Felipe de A. Ferreira*



* Palestrante e escritor espírita. Autor do livro Ramatis: Sábio ou Pseudossábio? São Paulo: Capivari, E.M.E., 1997.














INTRODUÇÃO

Este livro remete ao primado metodológico de Allan Kardec [1804-1869] na fundação e constituição da doutrina espírita. Fiz aqui análises críticas motivadas pelo contido nas páginas 43 a 76 do prefácio de muito antigo exemplar do tomo primeiro da obra Espiritismo Christão ou Revelação da Revelação — Os Quatro Evangelhos, do advogado da cidade francesa de Bordéus Jean-Baptiste Roustaing [1805?-1879]. Foi o tomo impresso em Portugal (Porto, 1920) sob a responsabilidade da Federação Espírita Brasileira — F.E.B., com tradução de Guillon Ribeiro.

Esta parte do prefácio tem o seguinte título, que transcrevo no português de suas mofadas páginas: “Do caracter e da importancia da Revelação da Revelação como abridôra da phase theologica — Sua opportunidade manifesta e incontestavel — Resposta ao artigo de Allan Kardec (Revista, de junho de 1867)”.[1]

Tais laudas, porém, foram suprimidas das edições mais recentes de Os Quatro Evangelhos. Talvez a editora haja percebido ser um erro continuar a publicá-las; afinal, Roustaing abdica, ali, das possíveis virtudes que Kardec lhe havia atribuído na Revista Espírita de junho de 1861; trata-se da prova documental de que Roustaing e seus discípulos se tornaram encarniçados contraditores do codificador do Espiritismo e dos espíritas. Mesmo assim, o estatuto da F.E.B. ainda registra: “Além das obras básicas da codificação, o estudo e a difusão da doutrina espírita ou Espiritismo compreenderão a obra de J.-B. Roustaing e outras subsidiárias”. (Art. 1.º, § único.)

Originalmente, as páginas omitidas eram de um livro chamado Os Quatro Evangelhos de J.-B. Roustaing — Resposta a seus Críticos e a seus Adversários, de 1883, publicado pelos discípulos deste advogado a título de “memória de além-túmulo” e vendido, à época, pelo livreiro Feret, Passagem da Intendência, 15, Bordéus, e na Livraria das Ciências Psicológicas, 5, Rua des Petits-Champs, Paris.

Não acalento nenhuma pretensão ao ineditismo, pois o material de que também trata este meu trabalho constituiu objeto de muitos comentários no passado, foi publicado em jornais espíritas, alguns de grande circulação, e está ainda, ao que me parece, disponível na rede mundial de computadores.[2]

O que me levou a escrever este livro foi apenas o desejo de compartilhar a busca de uma melhor compreensão para um capítulo praticamente desconhecido da História do Espiritismo, o que conduz fatalmente ao problema crucial da metodologia para constituição do conhecimento verdadeiramente espírita.

Da propaganda centenária da F.E.B. transparece que Roustaing fora sempre amigo de Kardec e distinto adepto da doutrina espírita. Mas a verdade é que se tornou um contraditor em franca campanha de subversão da ordem doutrinária.

As páginas que foram omitidas no prefácio das edições mais recentes de Os Quatro Evangelhos têm importância para os espiritistas atuais, em função de constituir o manifesto da primeira facção declaradamente cismática do movimento espírita.

Além disto, a parte de prefácio amputada pela editora é muito útil por ser uma espécie de matriz simbólica do que seria, mais tarde, no todo ou em parte, o ideário de quase todas as correntes deturpadoras do pensamento kardeciano.

O flagrante é inequívoco: 1.º pretensão de, por mil nadas, julgar-se à frente de Kardec e mesmo de substituí-lo; 2.º constante invocação de pluralismo inconsequente, de alteridade irresponsável, que levaria à diluição do Espiritismo nos horizontes embriagados do ecletismo; 3.º messianismo delirante, anunciador da volta próxima do Cristo, cultor da infalibilidade bíblica e da autoridade do Papa; 4.º “a moral” como “simples passaporte” dos Espíritos obsessores, para que possam “impor suas ideias, por mais disparatadas que sejam”. (Cf. O Livro dos Médiuns, 246.)

Toda a razão ao nosso J. Herculano Pires: “Roustaing é o antiKardec. Se Kardec é o bom-senso, Roustaing é a falta de senso. [...] há uma intenção evidente: a de lançar o ridículo sobre o Espiritismo. [...] Os Quatro Evangelhos é o Cavalo de Troia do Espiritismo”. (O Verbo e a Carne. O Roustainguismo à Luz dos Textos. VI e X.)

De fato, sem um conhecimento desvelado de sua verdadeira História, pouco se poderá realizar em efetivo benefício da vulgarização e do desenvolvimento da doutrina espírita. Constitui dever moral de todos os seus adeptos sinceros e devotados identificar os efeitos da influência sorrateira dos ensinos rustenistas, já que potencializaram quase todas as mistificações que vieram a grassar sobre o nosso movimento, sob o patrocínio, infelizmente, de sucessivas diretorias e conselhos da centenária Federação Espírita Brasileira, que propagaram tais ensinos mediante um poderoso parque editorial e uma considerável infraestrutura institucional. Aliás, a confissão do credo rustenista, ao que parece, seria uma exigência estatutária imposta a diretores e conselheiros da F.E.B., conforme antiga denúncia de Júlio Abreu Filho.

[...] foi por um abuso de confiança, tomando procurações dos kardecistas votantes, que se deveriam reunir em assembleia, na qual seria eleita a direção da F.E.B., que, num golpe baixo, os roustainguistas assaltaram o poder; feito isto, reformaram os seus estatutos, introduzindo um dispositivo que exige a confissão do credo roustainguista para poder participar do conselho e da diretoria; ainda pelos estatutos, a diretoria completa o conselho, e este elege a diretoria. Vejam-se Art. 2.º, letra “a”, e Art. 36.º, § 3.º Se houvesse essa unidade de vistas que [se] proclama, se não houvesse uma divisão de águas, estabelecida pelos roustainguistas, os kardecistas não encontrariam ali as portas trancadas. Se ali forem, não se lhes pede colaboração mas subserviência [...]. (O Verbo e a Carne. Erros Doutrinários. VI.)

Não é alcançável o direito de os rustenistas e congêneres pensarem como quiserem. Mas se pode questionar que apresentem ao movimento espírita, a título de “Espiritismo”, conceitos oriundos de obras em franco desalinho com a codificação kardeciana. Eis o que faço aqui. Quanto à F.E.B., a ela não me oporei senão enquanto sustente uma Unificação nas bases carcomidas do Pacto de 5 de outubro de 1949, que atrela nosso movimento aos equívocos lastimáveis de Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, o que, infelizmente, assim como o rustenismo, ainda é causa estatutária daquela instituição, contrariando a opinião já atinada da maioria de seus integrantes e do Conselho Federativo Nacional. No mais, que o Cristo Jesus esteja sempre conosco, orientando-nos a estima recíproca na dimensão humanitária a cujo exercício a Vida Maior constantemente nos exorta.



[1] Ressalte-se que há um erro de data, pois o artigo de Kardec está na Revista Espírita de junho de 1866, e não 1867: Notícias Bibliográficas. Os Evangelhos Explicados pelo Sr. Roustaing.

[2] Recentemente, um adepto do rustenismo publicou a Resposta em sua totalidade. No entanto, a íntegra só ratifica a parte. Em vão ali procurei o que minimizasse as desastrosas faltas do advogado bordelês.















PARTE I

DA CRÍTICA ÀS RAZÕES DO CISMA RUSTENISTA


Capítulo 1

O FUTURO É TUDO

Tive oportunidade de comentar, seja em programas radiofônicos, em livros, seja em palestras ou seminários, sobre as doutrinas de J.-B. Roustaing. E Deus sabe o preço que pago por isto... Mas nada vale o silêncio acerca deste assunto, senão em proveito de colaboração com erros manifestos, a pretexto do cultivo de virtudes que são quase sempre desconhecidas da turminha seráfica do deixa-disso. Aliás, o estudo das instruções de Kardec e dos Espíritos superiores que o assistiram não deixa qualquer dúvida quanto ao que se deve fazer:

Crede-me, não temais desmascarar os embusteiros que, novos Tartufos[1], se introduziriam entre vós sob a máscara da religião; sede igualmente impiedosos para com os lobos devoradores, que se ocultariam sob peles de cordeiro. (Revista Espírita. Novembro/1861. Primeira Epístola de Erasto aos Espíritas de Bordéus.)

É preciso que se saiba que o Espiritismo sério se faz patrono, com alegria e apressuramento, de toda obra realizada com critério, qualquer que seja o país de onde provém, mas que, igualmente, repudia todas as publicações excêntricas. Todos os espíritas que, de coração, vigiam para que a doutrina não seja comprometida, devem, pois, sem hesitação, denunciá-las, tanto mais porque, se algumas delas são produtos da boa-fé, outras constituem trabalho dos próprios inimigos do Espiritismo, que visam a desacreditá-lo e poder motivar acusações contra ele. Eis porque, repito, é necessário que saibamos distinguir aquilo que a doutrina espírita aceita daquilo que ela repudia. (Viagem Espírita em 1862. Instruções Particulares. VI.)

Nunca me interessou a polêmica em si. Fui surpreendido em meus estudos pelo que se me revelou a simbólica matriz de todos os esforços deturpadores do pensamento kardeciano, do legítimo ensino espiritual de Jesus a novos tempos. Como deixar de denunciar tal foco vicioso se isto corresponde a genuínos interesses doutrinários e das futuras gerações de espíritas?

Um quase-silêncio fomentou-se à custa de tolerância bastarda e de rotunda ignorância... A verdade costuma cair no esquecimento. Então, alguns vêm com a tarefa ingrata de lembrá-la aos outros e a si mesmos, num trabalho tão necessário ao conjunto quanto todos os demais. Sempre que emerge uma nova geração ávida pela verdade, justiça costuma ser feita aos que, embora carentes do reconhecimento de seus pares, não hesitaram em trabalhar pelo próprio futuro e pelo de todos, ainda que sob os golpes da tibieza e da incompreensão de seus contemporâneos...

Tal, a razão que levou o mestre lionês a dizer na Revista Espírita de junho de 1865: “O presente é fugidio; amanhã sê-lo-á mais; para nós nada é; o futuro é tudo e é para o futuro que trabalhamos”. (Nova tática dos adversários do Espiritismo.) Portanto, espelhemo-nos em Kardec e nAquele que o protegia “de modo muito particular”. (Cf. Obras Póstumas, 09/09/1863.) Fiquemos em guarda contra o “fermento” dos fariseus e saduceus. Fixemos a higidez perene da individualidade imortal, que conhece a verdade porque ama e ama porque de fato conhece a verdade.



[1] Falsos devotos, indivíduos hipócritas.

Capítulo 2

A POSTURA DE KARDEC

Pode-se ler em Os Quatro Evangelhos de J.-B. Roustaing — Resposta a seus Críticos e a seus Adversários [1883] que o próprio advogado de Bordéus admitiu ser a análise de Kardec, na Revista Espírita de junho de 1866, “o mais belo enterro de primeira classe que se pudera desejar” para a Revelação da Revelação.

O parecer de Kardec julgou prolixo o livro que o advogado bordelês lhe remetera já desde sua apresentação original, em três volumes. O mestre disse: “[...] limitando-se ao estritamente necessário, a obra poderia ter sido reduzida a dois, ou mesmo a um só volume e teria ganho em popularidade”. E ainda assim a F.E.B. houve por bem publicá-la em quatro tomos. Prova do quanto valiam para alguns de seus diretores as sábias orientações de Allan Kardec.

Em face da crítica meridiana do mestre lionês, os volumes em exame foram considerados pela quase totalidade dos espíritas, no dizer do próprio Roustaing, “uma obra inútil”. Este, o real motivo do descontrole do advogado bordelês e de seus discípulos ao acusarem o codificador da doutrina espírita — pasmem — de autoritarismo, ostracismo, infalibilidade e até falsa sabedoria, ignorância.

Em janeiro do ano de publicação da Resposta rustenista a seus críticos e adversários desencarnou a viúva de Kardec. Nem estas ilustres memórias os discípulos de Roustaing foram capazes de respeitar. O advogado bordelês partira já em 1879. Quatro anos antes. Enquanto entre os vivos estiveram Kardec e sua doce Gabi, aqueles dissidentes declarados não ousaram enfrentar-lhes o que teria sido a merecida réplica, que coube, por fim, ao Jornal Le Spiritisme, da União Espírita Francesa, com a edição de J.-B. Roustaing perante o Espiritismo — Resposta a seus discípulos.

Esta réplica do Le Spiritisme se encontra sem tradução para o vernáculo porque, aos viajados rustenistas, não interessou tal publicação, a eles que se dizem tão interessados na grandeza da Causa Espírita. Que publiquem este histórico contraditório da União Espírita Francesa e mostrem ao menos esta nesga de amor à História do Espiritismo sem o vil desejo de reescrevê-la a favor de sua seita dissidente.

Onde estão os endinheirados mecenas espíritas que não se ocupam disto com mais presteza? Interessados tão-só na salvação de suas alminhas para o reino dos anjos, por pífias esmolas arrancadas às suas abarrotadas contas bancárias, mero dever moral orgulhosamente alçado à condição de santa caridade...

O debate sério era procedimento habitual do codificador; ao contrário do que acontece nos meios paroquianos do movimento espírita, esquecidos do Kardec histórico. Os seguintes tópicos bem o lembram:

Nossa Revista será uma tribuna na qual a discussão jamais deverá afastar-se das normas das mais estritas conveniências. Numa palavra, discutiremos, mas não disputaremos. (Revista Espírita. Janeiro/1858. Introdução.)

[...] jamais daremos satisfação aos amantes de escândalos. Entretanto, há polêmica e polêmica. Há uma ante a qual jamais recuaremos — é a discussão séria dos princípios que professamos. [...] É isto o que chamamos polêmica útil, pois o será sempre que ocorrer entre gente séria, que se respeita bastante para não perder as conveniências. Podemos pensar de modo diverso sem diminuirmos a estima recíproca. (Revista Espírita. Novembro/1858. Polêmica Espírita.)

O Espiritismo quer ser claro para todos e não deixar aos seus futuros seguidores nenhum motivo para discussão de palavras. Por isso todos os pontos suscetíveis de interpretação serão elucidados sucessivamente. (Revista Espírita. Junho/1863. Do Princípio da Não-Retrogradação do Espírito.)

Por grande, bela e justa que seja uma ideia, impossível é que desde o primeiro momento congregue todas as opiniões. Os conflitos que daí decorrem são consequência inevitável do movimento que se opera; eles são mesmo necessários para maior realce da verdade e convém se produzam desde logo, para que as ideias falsas prontamente sejam postas de lado. (O Evangelho Segundo o Espiritismo. Introdução, II.)

[...] vede como se empenham em acusar o Espiritismo de todas as aberrações e de todas as excentricidades pelas quais não podia ser responsável. A doutrina não é ambígua em nenhuma de suas partes; é clara, precisa, categórica nos mínimos detalhes; a ignorância e a má-fé só podem enganar-se sobre o que ela aprova ou condena. É, pois, um dever de todos os espíritas sinceros e devotados repudiar e desautorizar abertamente, em seu nome, os abusos de todos os gêneros que pudessem comprometê-la, a fim de não lhes assumir a responsabilidade; pactuar com os abusos seria tornar-se cúmplice e fornecer armas aos nossos adversários. (Revista Espírita. Junho/1865. Nova tática dos adversários do Espiritismo.)

Cada um tem os seus pequenos defeitos; nós temos o de não pensar ora branco, ora preto; temos uma linha traçada e dela não nos desviamos para agradar a ninguém. É provável que sejamos assim até o fim. Falar dessas opiniões divergentes que, em definitivo, se reduzem a algumas individualidades, e em parte alguma fazem corpo não será talvez, perguntarão algumas pessoas, ligar a isto muita importância, amedrontar os adeptos fazendo-os crer em cisões mais profundas do que realmente o são? Não é, também, fornecer armas aos inimigos do Espiritismo? É precisamente para prevenir esses inconvenientes que disto falamos. Uma explicação clara e categórica, que reduz a questão ao seu justo valor, é bem mais própria a assegurar do que a espantar os adeptos. Eles sabem a que se ater e aí encontram ocasião dos argumentos para a réplica. (Revista Espírita. Abril/1866. O Espiritismo independente.)

Em sua análise de Os Quatro Evangelhos (cf. Revista Espírita. Junho/1866. Os Evangelhos Explicados), Kardec mostrou a elegância de um verdadeiro missionário: lúcido, equilibrado, leal, mas firme, decidido, ciente da justeza de suas razões. O mestre deixou aos Espíritos que ditaram a suposta Revelação da Revelação a responsabilidade pelas coisas “duvidosas” que disseram, como as adjetivou o próprio codificador. Ainda assim, recomendou sua leitura aos conscienciosos.

Confiante na razão, Kardec não negou ao discernimento dos espíritas sérios a capacidade de rejeitar as teses rustenistas. Deixou claro, porém, que, “até mais ampla confirmação, não poderiam ser consideradas como partes integrantes da doutrina espírita”. E já em 1868, no livro A Gênese, XV, 66, Kardec demonstrou que não houve endosso, e sim contradita. (Cf. cap. 8.)

O codificador desejava que tudo estivesse sob a mais intensa luz. Jamais adotou a providência inquisitorial da imposição de silêncio sobre o quer que fosse. Todavia, muitos espíritas, julgando-se mais cautelosos que o mestre o foi, afirmam não falarem de assuntos polêmicos porque não querem divulgar “o mal”.

Mas o que falta à maioria destes tais é a segurança que só o conhecimento das razões doutrinárias lhes poderia proporcionar. Isto, entretanto, somente se consegue ao preço de intensos estudos, nunca ao baixíssimo valor de memorizações de frases de efeito, fundadas em retóricas piegas, de todo ignorantes do que seja realmente o sentimento do bem.

Capítulo 3

A PROVA DO CISMA RUSTENISTA

Nas páginas suprimidas do prefácio de Os Quatro Evangelhos, de 1920, Roustaing e seus discípulos acusam, com ironia e desdém, o codificador de ser o “chefe”, o “mestre” de uma “igrejinha com seus corrilhos, entregue a lutas liliputianas”.

Data venia, o “jurisconsulto sábio e profundo, advogado poderoso pela sua dialética e pela atração de sua eloquência”, como se referem a Roustaing os seus discípulos, é que afirmou estar a pretendida Revelação da Revelação destinada “a criar a base e os fundamentos da igreja una e universal do Cristo para a era nova”. Foi Roustaing que, no vocativo de sua carta a Kardec, utilizou as expressões “Mon cher monsieur et très honoré chef Spirite”. (Revista Espírita. Junho/1861. Correspondência.)

Não se pode discordar dos discípulos do advogado bordelês quando dizem que este era dono de “um coração simples” e de um “espírito humilde”, porque chegou a afirmar que sua própria obra precedia e preparava — imaginem — “o novo advento do Messias”, o qual viria “para sancionar a verdade e mostrá-la sem véus”; afinal, haviam ensinado os guias rustenistas:

Por que a Jesus [...] seria impossível materializar [...] um corpo perispirítico tangível com as faculdades aparentes do homem, as fases aparentes do seu desenvolvimento? Este fato, único até hoje nos anais do vosso planeta, se produzirá de novo, quando o tempo for chegado. Então, melhor o compreenderão os homens [...]. (Os Quatro Evangelhos, vol. I, n. 14.)

Nem a posse, portanto, de “uma ciência e uma erudição excepcionais” puderam evitar que o jurisconsulto bordelês professasse uma crença desculpável apenas ao estado medieval de analfabetismo. E foi este homem que se dirigiu à “escola” de Kardec para exortá-la à “instrução” e à “educação”; para concitá-la à renúncia de suas “momices” e “superstições”. Sim, este homem que pretendia viável a “fusão” de catolicismo, protestantismo, judaísmo, islamismo, bramanismo e budismo com “a religião dos selvagens e das tribos”.

Desconhecendo por completo o alcance de O Livro dos Espíritos já desde o seu primeiro questionamento, Roustaing assegurou ainda que Os Quatro Evangelhos era a publicação “abridora da fase teológica”, “o primeiro plano da obra do Espírito da Verdade, preparatória da era nova, cujo início ela marca”. Se os volumes rustenistas eram considerados, pois, este “primeiro plano”, este marco inicial da “fase teológica” e da era nova, a intenção de ignorar e até de substituir a obra kardeciana é mais que evidente.

Isto se confirma igualmente quando os discípulos de Roustaing ressaltam que seu mestre — pasmem —, “mau grado às injustiças que de Kardec recebera”, sempre o “considerou como o verdadeiro fundador da doutrina espírita”. Como se houvesse alguma dúvida sobre quem era o fundador do Espiritismo e Roustaing, ou qualquer outro, tivesse realizado algo que pudesse suscitar esta incerteza.

Fica patente a rivalidade, a exagerada conta em que Roustaing e seus discípulos tinham sua própria “escola”, supostamente tão superior à de Kardec a ponto de poder substituí-la. Àquela época, o cisma rustenista era confesso. Proclamavam: “Cismas há atualmente; ninguém tem o poder de impedi-los”.

Não se tratava, portanto, de uma ocasional divergência, mas de uma funda dissidência, cujo “dever”, segundo entendiam Roustaing e seus discípulos, era o de “criar o livre pensamento espiritualista”. Foi assim que chegaram a lançar à obra de Kardec a pecha de “espiritismo de fantasia”, acusando-a de pretender “nivelar todas as inteligências e ligá-las ao mesmo dogma”.

Claro que nunca deram ouvidos ao que o Espírito Santo Agostinho disse certa feita sobre Kardec e o Espiritismo, e que transcrevi para o frontispício deste meu estudo. (Cf. Revista Espírita. Agosto/1862. Sociedade Espírita de Constantina.)

Mais do que evidente fica o porquê de o mestre lionês, na introdução de A Gênese, assim se ter exprimido:

[...] os materiais [de A Gênese] se achavam prontos, ou, pelo menos, elaborados desde longo tempo; mas, ainda não chegara o momento de serem publicados. Era preciso, primeiramente, que as ideias destinadas a lhes servirem de base houvessem atingido a maturidade e, além disso, também se fazia mister levar em conta a oportunidade das circunstâncias. O Espiritismo não encerra mistérios, nem teorias secretas; tudo nele tem que estar patente, a fim de que todos o possam julgar com conhecimento de causa. Cada coisa, entretanto, tem que vir a seu tempo, para vir com segurança. Uma solução dada precipitadamente, primeiro que a elucidação completa da questão, seria antes causa de atraso do que de avanço. Na de que aqui se trata, a importância do assunto nos impunha o dever de evitar qualquer precipitação.

Patenteado está que Kardec se refere ao proceder exclusivista e, por que não dizer, pretensioso de Roustaing. Como dissera o mestre em sua crítica de junho de 1866, o advogado de Bordéus “quis atingir o fim de um salto”. Segundo Kardec, portanto, Roustaing precipitou-se, gerando “antes causa de atraso do que de avanço” para o Espiritismo. (Cf. cap. 5.)

Capítulo 4

AS ADVERTÊNCIAS DE KARDEC E A PROFECIA DE ERASTO

Ismael Gomes Braga, na sua publicação rustenista Elos Doutrinários (cap. I), chegou a assegurar que a própria médium Émilie Collignon, psicógrafa de Os Quatro Evangelhos, discordava das teses ali expostas. (Talvez ela acalentasse instintiva repulsa ao tipo de Espíritos que eram autores da pretendida revelação.) O pior é que a nomenclatura criada por Kardec — a palavra Espiritismo, inclusive — estava em toda a suposta Revelação da Revelação, mesmo no título: “Espiritismo cristão”. Como se nunca fora dito por Kardec:

O essencial está em que o ensino dos Espíritos é eminentemente cristão; apoia-se na imortalidade da alma, nas penas e recompensas futuras, na justiça de Deus, no livre-arbítrio do homem, na moral do Cristo. Logo, não é antirreligioso. (O Livro dos Espíritos, 222.)

Na Revista Espírita de junho de 1863 há um artigo kardeciano sobre a não-retrogradação do Espírito. Este texto foi citado pelo advogado de Bordéus e submetido ao exame dos autores espirituais de Os Quatro Evangelhos no número 59 da obra. Os guias da pretendida Revelação da Revelação concluíram que os que pensam ser a encarnação uma necessidade geral “não foram esclarecidos, ou não refletiram bastante”.

Kardec diz em seu artigo de junho de 1863 que a ideia rustenista de que “os Espíritos não teriam sido criados para se encarnarem”, que “a encarnação não seria senão o resultado de sua falta”, constitui um sistema “especioso à primeira vista”, e que “tal sistema cai pela mera consideração de que, se nenhum Espírito tivesse falido, não haveria homens na Terra”.

Segundo o codificador, o homem “é uma das engrenagens essenciais da criação” e, por esta razão, “Deus não podia subordinar a realização desta parte de sua obra à queda eventual de suas criaturas, a menos que contasse para tanto com um número sempre suficiente de culpados para fornecer operários aos mundos criados e por criar”. Para Kardec: “O bom-senso repele tal ideia”.

Mas a isto responderam os guias de Roustaing: “A última frase deve ser riscada”. E mesmo confessando que era “cedo” para resolver a “origem do Espírito” — em relação ao quê, aliás, Kardec já recomendara máxima cautela, pela insistente predileção que lhe dedicam os Espíritos sistemáticos (cf. O Livro dos Médiuns, 300) —, os guias rustenistas exortaram a vaidade da sensitiva e do próprio jurisconsulto assim:

Utilizai-vos do que vos dizemos [sobre a origem das coisas], porquanto, ao tempo em que este vosso trabalho aparecer aos olhos de todos, os Espíritos encarnados já se acharão mais dispostos a receber o que então [quando, em O Livro dos Espíritos, foi dito que o Espírito era criado simples e ignorante], e mesmo hoje [abril de 1863], tomariam por uma monstruosidade, ou por uma tolice ridícula. (Os Quatro Evangelhos, vol. I, n. 56, 5.ª ed., FEB, p. 295. Entre colchetes, palavras minhas, em adendo.)

Kardec reafirmou em seu artigo de junho de 1863 a doutrina de O Livro dos Espíritos e negou a tese rustenista que assegura que a reencarnação é ocasionada por castigo a Espíritos faltosos. Isto prova irrefutavelmente que não é verdadeira a propaganda centenária da F.E.B., a qual sempre deu conta de que Kardec e Roustaing só divergiam quanto à natureza do corpo de Jesus, concordando em tudo mais.

O codificador disse em alto e bom som que o estado primitivo do Espírito não é o de “inocência inteligente e raciocinada”. Estes termos utilizados pelo mestre lionês em junho de 1863 resumem com precisão as teses “especiosas” da Revelação da Revelação que, no entanto, somente seria publicada três anos depois. Se não, vejamos:

Atingindo o ponto de preparação para entrarem no reino humano, os Espíritos se preparam, de fato, em mundos ad-hoc, para a vida espiritual consciente, independente e livre. É nesse momento que entram naquele estado de inocência e de ignorância. A vontade do soberano Senhor lhes dá a consciência de suas inocência e faculdades e, por conseguinte, de seus atos, consciência que produz o livre-arbítrio, a vida moral, a inteligência independente e capaz de raciocínio, a responsabilidade. Chegado deste modo à condição de Espírito formado, de Espírito pronto para ser humanizado se vier a falir, o Espírito se encontra num estado de inocência completa, tendo abandonado, com os seus últimos invólucros animais, os instintos oriundos das exigências da animalidade. [...] Os que se conservam puros também desenvolvem atividades e inteligência, a fim de progredirem, no estado fluídico, por meio dos esforços espirituais que necessitam fazer para, da fase de inocência e de ignorância, de infância e de instrução, chegarem, sem falir, à perfeição! (Os Quatro Evangelhos, vol. I, ns. 56 e 59. Grifos meus.)

Esta flagrante coincidência de vocábulos e a citação, no número 59 de Os Quatro Evangelhos, da absoluta negativa de Kardec à tese da “queda” evidenciam que, de alguma sorte, já em 1863, o codificador tomou ciência do material que estava sendo compilado por Roustaing desde dezembro de 1861. E como? Difícil dizer. Mas é válida a ponderação do saudoso confrade Gélio Lacerda da Silva, ex-presidente da Federação Espírita do Estado do Espírito Santo:

Para entender como Kardec contestou, em 1863, um assunto que Roustaing veiculou no seu livro, publicado em 1866, tudo leva a crer que Roustaing, antes do seu livro vir a público, já divulgava o seu conteúdo. Foi em abril de 1863 que os Espíritos mistificadores ditaram a Roustaing, através de Mme. Collignon, o ensino antidoutrinário de que o Espírito só será humanizado se vier a falir, conforme nota de rodapé da pág. 295, 1.º volume, 5.ª ed. de Os Quatro Evangelhos; portanto, não há dúvida de que Kardec, em junho de 1863, no seu referido artigo, se louvou na mensagem ditada a Roustaing em abril de 1863. (Conscientização Espírita. Do Princípio da Não-Retrogradação do Espírito.)

Deveras oportuna esta asserção de Gélio. E aduzo a ela mais dois fatos relevantes. O primeiro é que, antes de começar a compilar sua obra, Roustaing manifestou uma crença tresloucada de que as criaturas seriam chamadas a galgar a “longa e alta escala espírita para, após haver percorrido todos os degraus, chegar ao estado de simplicidade e de ignorância originais, à perfeição intelectual e moral, e, por essa perfeição, a Deus.” A quem ocorreria que a perfeição intelectual e moral fosse um estado em que se recobrasse uma simplicidade e uma ignorância originais? As teses da queda, portanto, já se insinuavam, mesmo que esboços, ao advogado de Bordéus.

Nos comentários a esta carta de Roustaing, pode ser que tal conceito não haja merecido um pronto reparo de Kardec até por lhe ter escapado em meio à confusa e prolixa prosa da missiva; o próprio advogado ali sinaliza para tanto: “Após três meses de silêncio, eu vos fatigo com uma carta muito longa. Respondei quando puderdes e quiserdes”. Kardec também pode haver-se apiedado do entusiasmado adepto, de tão distinta posição social e a quem não quis, talvez, afrontar em sua convalescença. Declarou Roustaing: “Eu me proporia a fazer uma viagem a Paris para ter o prazer de vos conhecer pessoalmente, de fraternalmente vos apertar a mão. Minha saúde a isto se opõe no momento. Podeis fazer desta carta o uso que achardes conveniente. Eu me honro de ser altamente e publicamente Espírita”. (Revista Espírita. Junho/1861. Correspondência.)

O segundo fato relevante é que o codificador publicou, como fazia a tantos outros, alguns materiais da médium Émilie Collignon; parte de um deles, contudo, era uma mensagem que pretendia substituir outra antes publicada por Kardec, do Espírito Gérard de Codemberg, cujos conselhos sobre a necessária homogeneidade de pensamento nas reuniões espíritas sérias o mestre endossara e, ao que parece, haviam sido desencorajados pelo suposto substituto que se apresentou a E. Collignon. O gênio lionês, então, diz à médium, sem rodeios, que o texto mediúnico por ela recebido “tem todos os caracteres de uma comunicação apócrifa.” (Revista Espírita. Junho/1862. Princípio vital das sociedades espíritas. Grifo meu.)

A situação não era boa para a sensitiva, que já estava recebendo a pretensa Revelação da Revelação desde de dezembro de 1861, o que se estenderia até maio de 1865,[1] e em clima, agora, de provável melindre, em função deste parecer desfavorável de Kardec. Quanto a Roustaing, pôde contar ainda com a advertência oportuna do codificador, que se dignou até poupá-lo do ridículo, dada sua distinção social, não lhe mencionando o nome naquele artigo de junho de 1863, sobre a não-retrogradação do Espírito. Elegante, mas firme, Kardec definiu a tese rustenista da queda como “um sistema que tem algo de especioso à primeira vista”, argumentado da forma que já destaquei de início.

O jurisconsulto bordelês, portanto, deveria ter acatado o entendimento do seu “muito honrado chefe Espírita”. Foi dada a Roustaing a oportunidade de desistir daquele trabalho, todavia não o interrompeu; na certa, por orgulho ferido. Um ex-presidente da Ordem dos Advogados, membro do Tribunal Imperial de Bordéus, a ser “desacatado” por um professor lionês radicado em Paris. Não, isto não podia ser, ainda mesmo que se tratasse de um autor pedagógico aclamado.

A médium Collignon e o advogado Roustaing. Ambos em situação de evidente mágoa por não haverem obtido de Kardec o respaldo que ambicionavam para seus trabalhos mediúnicos. Combinação explosiva que gerou o primeiro cisma no movimento espírita, cujos ecos, infelizmente, se podem ouvir ainda.

Não bastassem estas advertências de Kardec, Espíritos orientadores haviam expedido alertas a respeito de um ataque de entidades mistificadoras na cidade de Bordéus. Durante a sessão geral lá ocorrida a 14 de outubro de 1861, Kardec leu, após o seu discurso, uma epístola de Erasto aos espíritas daquela localidade.

Em voz um tanto mais severa, o amigo espiritual da codificação kardeciana assegurou ser necessário premunir os espíritas bordeleses contra um perigo que era seu dever lhes assinalar. Erasto avisou-os, então, do iminente assalto de uma turba de Espíritos enganadores, cuja finalidade seria fomentar a cisão, a divisão, e levar a uma ruptura por todos os títulos lamentável.

Repetindo o que os próprios guias espirituais do movimento em Bordéus disseram aos espíritas daquela cidade, Erasto esclareceu que haveria dois tipos de mistificadores no ataque. Um tipo viria com combinações abertamente hostis aos ensinos dos legítimos missionários do Espírito de Verdade, este, o presidente da regeneração planetária e guia pessoal de Kardec e do Espiritismo. Outro tipo de mistificadores, porém, apresentar-se-ia com dissertações sabiamente combinadas, nas quais, graças a tiradas piedosas, insinuariam a heresia ou algum princípio dissolvente.

Roustaing tomou conhecimento da epístola por terceiros? Ou, como adeptos seus afirmam hoje sem provas, esteve presente à sessão geral? De qualquer forma, não foi por falta de mais este aviso que cometeu o erro de publicar sua pretensa Revelação da Revelação, cujos ditados começariam a aparecer já em dezembro daquele ano, dois meses depois da sessão geral, insinuando exatamente a heresia gnóstico-docetista do Jesus fluídico e o princípio dissolvente da reencarnação como resultado de uma suposta queda, espécie de falência, verdadeira retrogradação que, segundo os guias rustenistas, seria aplicável até a Espíritos com responsabilidades planetárias. (Cf. cap. 14.)

Tudo se deu tal qual a predição. Foi um vaticínio de Erasto; na ocasião, mensageiro do Espírito de Verdade; este último, aliás, alguns Espíritos ligados à Igreja dos primeiros tempos já haviam identificado como Jesus, em casa do Sr. Roustaing e do Sr. Sabo, a quem Kardec recomendou o primeiro, para que se iniciasse no Espiritismo. Ao lado do mal, vê-se que Deus pusera o remédio, mas não foi usado. (Cf. Revista Espírita. Junho/1861. Correspondência.)

Sintetizei o conteúdo da mensagem valendo-me das expressões do próprio enviado do Diretor dos Iniciadores do Espiritismo. Mas recomendo a leitura da epístola na íntegra, constante da Revista Espírita de novembro de 1861 (Primeira Epístola de Erasto aos Espíritas de Bordéus).

O fato é que Roustaing, infelizmente, se apoderou do nome e dos termos de uma doutrina cuja codificação nunca lhe coube. Além disto, nem ele nem seus discípulos jamais demonstraram em quê, afinal de contas, a tese basilar de sua “escola” se distingue da antiga tese dos gnósticos docetistas. No dizer autorizado de E. Pagels, a antiga seita postulava que “Jesus não era um ser humano, e sim um ser espiritual que se adaptara à percepção humana” (Os Evangelhos Gnósticos, IV), ou seja, no Espiritismo: um agênere.

Não se trata, claro, de o agênere desenvolver percepção física, mas, isto sim, de adaptar-se à percepção humana, isto é, de terceiros, a fim de que o possam notar, mesmo desencarnado; tanto assim, que os rustenistas apregoavam que Jesus não tinha “corpo material humano, sujeito à morte”, que “não podia sofrer segundo o nosso modo de entender material” e que — pasmem — “não morreu efetivamente no Gólgota”.

Oras! Diz o Espiritismo mui contundentemente:

[...] o Espírito, sem corpo material, não pode experimentar os sofrimentos, visto que estes resultam da alteração da matéria, donde também forçoso é se conclua que, se Jesus sofreu materialmente, do que não se pode duvidar, é que ele tinha um corpo material de natureza semelhante ao de toda gente. (KARDEC. A Gênese, XV, 65.)

Acresça-se a isso o flagrante de que, para o rustenismo, na prática, a carne humana é mesmo um efeito “do mal”; apenas a assumem os Espíritos que são punidos por faltas cometidas no “estado fluídico”. E o docetismo, segundo Pastorino, entendia exatamente isto:

[...] tudo o que é material é imperfeito e impuro, pois é obra do Princípio do Mal; como Jesus apresentara o Princípio do Bem, o Pai, não podia ter-se submetido ao Princípio do Mal e, portanto, não poderia ter tido corpo físico carnal. (Sabedoria do Evangelho. Vol. 3. Jesus anda sobre a água.)

De fato, neste texto de Os Quatro Evangelhos, dentre outros, pode-se constatar o horror dos guias docetistas ao corpo humano, vinculando-o à “lama”, ao “sofrimento”, à “falibilidade”; tornando-o efeito inerente à condição de “culpado”:

Maior ainda era a diferença entre esse corpo de Jesus e os vossos corpos de lama. [...] não o esqueçais: todo aquele que reveste a carne e sofre, como vós, a encarnação material humana é falível. Jesus era demasiadamente puro para vestir a libré do culpado. Sua natureza espiritual era incompatível com a encarnação material, tal como a sofreis. (Vol. 1, n. 14.)

Possível seria concluir então, com os guias rustenistas, que Jesus não cometeu imperfeições morais quando esteve na Terra não só porque nunca as praticara nos planos do Espírito, mas também porque não estava revestido da carne humana. A instrução 625 de O Livro dos Espíritos caducaria.

Sim, pois que valor possuiria para nós o guia e o modelo de uma perfeição que lhe foi conferida por processo evolutivo diferente daquele em que nos encontramos? Seria um guia errado, um modelo errado para uma humanidade errada, porque nada saberia de nossa vida terrestre, com a qual sua pureza sempre teria sido incompatível.

E mais: Jesus teria mentido quando disse a Nicodemos: “Falo do que sei; dou testemunho do que vi”, porquanto nada conheceria nem nada teria visto acerca da nossa experiência humana. O rustenismo, por estas e outras, é um insulto à autoridade moral e espiritual do Mestre de Nazaré, a despeito de supor exaltá-la.



[1] Cf. Os Quatro Evangelhos. Prefácio. FEB, 5.ª ed., 1971. p. 64 e 66.














Capítulo 5

OS CRITÉRIOS KARDECIANOS

Allan Kardec agia muito racional, gradativa e judiciosamente, sem nenhuma pretensão ao exclusivismo ou à infalibilidade. Recebia comunicações, conforme assegurou, “de perto de mil centros espíritas sérios, disseminados pelos mais diversos pontos da Terra”, razão indiscutível do sucesso de suas obras. Observava e estudava, com a assistência de seus guias espirituais, o movimento geral de comunicação dos Espíritos. Chegado o momento de entregar à publicidade o conjunto apurado das revelações, cada grupo espírita, ao ler as obras kardecianas, se lembrava de haver obtido instruções de sentido, senão idêntico, ao menos semelhante. (Cf. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Introdução, II.)

Tal o objeto das nossas publicações — dizia Kardec —, que se podem considerar o resultado de um trabalho de apuro. Nelas, todas as opiniões são discutidas, mas as questões somente são apresentadas em forma de princípios, depois de haverem recebido a consagração de todas as comprovações, as quais, só elas, lhes podem imprimir força de lei e permitir afirmações. Eis por que não preconizamos levianamente nenhuma teoria e é nisso exatamente que a doutrina, decorrendo do ensino geral, não representa produto de um sistema preconcebido. É também donde tira a sua força e o que lhe garante o futuro. (A Gênese, I, 53, nota 1. Grifo meu.)

Sobrou a Roustaing o desplante de dizer em sua malfadada Resposta póstuma que o mestre lionês — pasmem — não tinha sequer o endereço dos cerca de mil centros espíritas sérios e que, em sua posição, erigira-se num autoritário senhor feudal, fazedor de sectários, num papa, num chefe infalível.

Como se verifica, Roustaing foi mesmo um traidor, porque não hesitou em rebaixar à condição vulgar de um arrogante mentiroso aquele que tanto exaltou por “muito honrado chefe Espírita” (Cf. Revista Espírita. Junho/1861. Correspondência.)

E fez isto para quê? Para insistir na ilusão de que havia superado Kardec pelos ensinos confusos de Espíritos enganadores, que se comunicaram num mesmo lugar e por uma única médium — Bordéus, de dezembro de 1861 a maio de 1865.[1]

Desde 1859, o mestre de Lyon preconizava estes critérios para a codificação da doutrina espírita ou Espiritismo:

Dois meios podem servir para fixar as ideias sobre as questões duvidosas: o primeiro é submeter as comunicações ao controle severo da razão, do bom-senso e da lógica. É uma recomendação que fazem todos os bons Espíritos, e que procuram não fazer os Espíritos enganadores que sabem muito bem não poder senão perder com um exame sério e, por isso, evitam a discussão e querem ser acreditados sob palavra.

O segundo critério da verdade está na concordância do ensinamento. Quando o mesmo princípio é ensinado sobre vários pontos, por diferentes Espíritos e médiuns estranhos uns aos outros, e que não estão sob a mesma influência, pode-se disso concluir que ele é mais verdadeiro que aquele que emana de uma só fonte e se encontra em contradição com a maioria. (O Que é o Espiritismo, 99; também no título O Principiante Espírita.)

A qual destes dois critérios obedeceu a obra do advogado bordelês para que nela inscrevesse a palavra Espiritismo? A nenhum. Trata-se, pois, de usurpação barata. E ao contrário do que vociferavam Roustaing e seus discípulos, Kardec nunca pretendeu que seus critérios fossem infalíveis. Apenas os julgava investidos de maior segurança, de mais amplas garantias. Entendia que o exclusivismo e o isolamento, na época mesma do império do livre exame, jamais poderiam ser bons conselheiros.

Para Kardec, a coincidência estabelecida sobre um ponto de ensino dos Espíritos lhe conferia gravidade, não infalibilidade. É o que se lê no original da parte II da Introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo: “[...] la coïncidence seule leur donne de la gravité [...]”. As concordâncias no ensino coletivo dos Espíritos contrabalançavam, portanto, as escolhas da razão individual de Kardec e, não se duvide, vice-versa, como resta comprovado em O Livro dos Espíritos, 222:

Não é somente porque veio dos Espíritos que nós e tantos outros nos fizemos adeptos da pluralidade das existências. É porque essa doutrina nos pareceu a mais lógica [...] tê-la-íamos repelido, mesmo que provinda dos Espíritos, se nos parecera contrária à razão, como repelimos muitas outras, pois sabemos, por experiência, que não se deve aceitar cegamente tudo o que venha deles, da mesma forma que se não deve adotar às cegas tudo o que proceda dos homens. (Grifo meu.)

Era um jogo de confrontos dialógicos que transcorria muito equilibradamente no curso da genial metodologia kardeciana para codificação do Espiritismo. Assim não fosse, e ler as obras de Kardec com tanto proveito seria impensável 152 anos depois. As escolhas da sua razão individual sobrepujaram o ensino concordante dos Espíritos? Tiveram mais peso no jogo de confrontos? Sim e não. De uma forma ou de outra, no movimento de constante apuração comparativo-analítica do mestre lionês só podia haver méritos. Demais, a razão dialógica de um iluminista nato como Kardec será, a qualquer tempo, mil vezes preferível à mística cambaleante de um passional como Roustaing.

O primeiro exame comprobativo — assegurava Kardec — é, pois, sem contradita, o da razão, ao qual cumpre se submeta, sem exceção, tudo o que venha dos Espíritos. Toda teoria em manifesta contradição com o bom-senso, com uma lógica rigorosa e com os dados positivos já adquiridos, deve ser rejeitada, por mais respeitável que seja o nome que traga como assinatura. (O Evangelho Segundo o Espiritismo. Introdução, II. Grifos meus.)

Essa coletividade concordante da opinião dos Espíritos, passada, ao demais, pelo critério da lógica, é que constitui a força da doutrina espírita e lhe assegura a perpetuidade. Para que ela mudasse, fora mister que a universalidade dos Espíritos mudasse de opinião e viesse um dia dizer o contrário do que dissera. (A Gênese. Introdução. Grifo meu.)

E deste modo deveria ser feito, sobretudo, “no tocante àquilo que não possamos verificar com nossos próprios olhos”, como disse Kardec no seu artigo de análise dos volumes rustenistas, de junho de 1866.

Onde estavam, pois, a pretensão à infalibilidade, o ostracismo, o autoritarismo, a ignorância e a superstição de Kardec? Quem, afinal, aceitou o que disseram certos Espíritos pelo simples fato de eles o terem dito?

Sim, porque as tais pesquisas inglesas e alemães que teriam comprovado a tese do corpo fluídico concretizado de Jesus foram realizadas apenas na década seguinte à do lançamento da suposta Revelação da Revelação.

Estas pesquisas, aliás, tão-só ratificaram a existência do perispírito e a capacidade de este se tornar tangível, impregnando-se dos elementos oferecidos pelos médiuns de efeitos físicos. Qual a novidade? Mas daí a aplicá-las à pessoa de Jesus...

Por outra, se Kardec recusou argumentos e comunicações espíritas que, antes de Darwin, afirmavam a verdade sobre a descendência do homem, a seleção e a evolução das espécies, ele o fez muito bem. Isto só demonstra seu máximo rigor em não aceitar o que carecesse de base sólida, seu prudente escrúpulo em não acreditar, sobre este ou aquele ponto, apenas na palavra empenhada, seja dos encarnados, seja, com mais forte razão, dos desencarnados.

Os esclarecimentos acerca da evolução do princípio inteligente “numa série de existências que precedem o período a que chamamos humanidade”, realmente, só apareceram na segunda edição de O Livro dos Espíritos, de 18 de março de 1860, número 607. Mas não se afigura razoável que Kardec somente tenha visto efetividade nesta ideia após a publicação, em 1859, de A Origem das Espécies?

Só há méritos nisto! Apenas o misticismo de Roustaing poderia enxergar nesta suposta recusa de Kardec algo depreciativo. Ainda não haviam entendido que a tarefa dos Espíritos superiores não é revelar aos encarnados aquilo que só pelo trabalho estes devem alcançar. Dizia o mestre lionês:

Os bons Espíritos vêm nos instruir para nossa melhoria e nosso progresso, e não para nos revelar o que não devemos ainda saber, ou aquilo que não devemos aprender senão pelo nosso trabalho. Se bastasse interrogar os Espíritos para obter a solução de todas as dificuldades científicas, ou para fazer descobertas ou invenções lucrativas, todo ignorante poderia tornar-se sábio gratuitamente, e todo preguiçoso poderia se enriquecer sem trabalhar; é o que Deus não quer. Os Espíritos ajudam o homem de gênio pela inspiração oculta, mas não o isentam do trabalho e da pesquisa, a fim de deixar-lhe o mérito deles. (O Que é o Espiritismo, 50.)

As manifestações, nas suas inumeráveis modalidades, são fatos que o homem estuda para lhes deduzir a lei, auxiliado nesse trabalho por Espíritos de todas as categorias, que, de tal modo, são mais colaboradores seus do que reveladores, no sentido usual do termo. Ele lhes submete os dizeres ao cadinho da lógica e do bom-senso: desta maneira se beneficia dos conhecimentos especiais de que os Espíritos dispõem pela posição em que se acham, sem abdicar do uso da própria razão. Sendo os Espíritos unicamente as almas dos homens, comunicando-nos com eles não saímos fora da humanidade, circunstância capital a considerar-se. (A Gênese, I, 57.)

Os Espíritos não se manifestam para libertar do estudo e das pesquisas o homem, nem para lhe transmitirem, inteiramente pronta, nenhuma ciência. Com relação ao que o homem pode achar por si mesmo, eles o deixam entregue às suas próprias forças. Isso sabem-no hoje perfeitamente os espíritas. (A Gênese, I, 60.)



[1] Cf. Os Quatro Evangelhos. Prefácio. FEB, 5.ª ed., 1971. p. 64 e 66.













Capítulo 6

A LIGA DO ENSINO

No que respeita à Liga do Ensino do Sr. Jean Macé, afirmou Kardec ter guardado silêncio a propósito para “não prejulgar a questão e a cada um deixar a mais inteira liberdade”. Instado a manifestar o motivo de sua “abstenção pessoal”, o mestre asseverou: “[...] não temos razão de o calar; e, desde que desejam conhecê-lo, di-lo-emos francamente”. (Revista Espírita. Março/1867. A Liga do Ensino.)

O objetivo da Liga era “fazer instrução pura e simples, fora de qualquer preocupação de seita e de partido”. Mas Kardec houve por bem concluir: “Associamo-nos de boa vontade à ideia matriz, mas não ao seu modo de execução”. (Revista Espírita. Abril/1867. A Liga do Ensino [2.º Artigo]. Reflexões Sobre as Cartas Precedentes.)

Após analisar a proposta, o mestre entendeu que a Liga não oferecia “nenhum programa definido, nenhum plano traçado, nenhum objetivo preciso” (Revista Espírita. Março/1867. A Liga do Ensino), e afirmou: “Do vago que reina na economia do projeto, resulta que, subscrevendo-o, ninguém sabe a que nem porque se empenha”. (Revista Espírita. Abril/1867. A Liga do Ensino [2.º Artigo]. Reflexões Sobre as Cartas Precedentes.)

Apesar do relativo êxito que a Liga, aperfeiçoada pela experiência, alcançou posteriormente, que espírita sério poderia condenar as justas razões da abstenção de Kardec ao início; aliás, confessada pessoal? Que tem um assunto deste jaez a ver com a exatidão do controle do ensino dos Espíritos? Este tipo de ironia: “Pode-se ter um criterium universal e não se saber tudo, nem tudo prever”, aplicada assim, de modo totalmente descabido, a assunto temporal, poderia vir de partidários do Espiritismo, leais à nossa Causa e amigos de Kardec?

O que se constata é a total incompatibilidade da “escola” divinatória de Roustaing com o Espiritismo, o erro fragoroso que é propagar-lhe o ensino deturpador, quiçá discriminar-lhe distinção regimental, tal ainda ocorre à F.E.B. no parágrafo único do art. 1.º de seu estatuto. (Cf. Introdução.)













Capítulo 7

O RUSTENISMO E A INFALIBILIDADE BÍBLICA

Roustaing e seus discípulos ainda não haviam chegado à Era da Razão, porque se mostraram por demais entusiastas de teorias mirabolantes, vertidas na linguagem prolixa de Espíritos enganadores, que só fizeram lançá-los às vagas místicas dos tempos mágicos da antiga Era Mitológica.

Eles julgavam que textos bíblicos, como os versículos da revelação do anjo a Maria e depois a José, por exemplo, “não podem e não devem ser recusados”. E por esta pseudorrazão, para eles, “o que de Maria nasceu se formou por obra do Espírito Santo”. Entendiam que a concepção, a gravidez e o parto “não podiam ser e não foram reais”, mas “apenas aparentes”, porque, “se reais tivessem sido, estaríamos em presença de um fato contrário às leis naturais que presidem à geração dos corpos no seio da humanidade terrena”.

Bem se vê a opção do misticismo roustainguista: desumanizar o Cristo, “coisificar” Jesus (“o que” de Maria nasceu). Roustaing e seus discípulos, pois, rejeitaram a ordem natural biológica, criada por Deus e atestada pela Ciência, em favor da infalibilidade das Escrituras, dogma humano. Não surpreende que tenham a concepção delirante de que, até que se verifique a chegada de um certo “Espírito Regenerador”, bem como sua influência sobre o Papa, os médiuns “obterão somente fatos isolados, estranhos à ordem comum dos fatos”. (Cf. cap. 14.)

Ao oposto da racionalidade do Espiritismo, a “escola” de Roustaing acredita que, por estar escrito na Bíblia, um texto possui valor de dogma, abrigando necessariamente um suposto significado espiritual. Seria o caso das palavras bíblicas que dizem não ter Jesus pai, ou mãe, ou mesmo genealogia. (Hebreus 7:3.) Evidentemente, foram escritas numa preocupação com a tese do pecado original. Como subtrair Jesus a uma tal maldição? Negar-lhe a genealogia, a natureza biológica.

Acreditando que se empenhava em autenticar o texto evangélico, Roustaing afirmou que a influência “magneto-espírita” produziu “completa ilusão na mulher virgem e em todos os que testemunharam o fato”. O magnetizador, segundo ele, foi o próprio Jesus, que “se serviu da faculdade mediúnica da Virgem Maria para, fluidicamente, simular nela a gravidez”.

Esta ideia absurda foi justificada — pasmem — pela necessidade de o Messias vir ao planeta Terra “respeitando as tradições e os preconceitos da nação judaica”. Então, diziam Roustaing e seus discípulos que “Jesus Cristo não foi um homem carnal, revestido de um corpo material humano, qual o do homem terreno, sujeito como este à morte; não, ele não morreu efetivamente no Gólgota”.

Ensinavam estas excrescências e depois acusavam Kardec e os espíritas de ser-lhes “indispensável um Jesus sangrento, choroso, gemebundo, andrajoso e ofegante”. Invertendo a ordem natural, a “escola” de Roustaing afiançava que “há dois mil anos o populacho e os crentes tudo sacrificam para gozar desse espetáculo fictício e legendário, mas que para um e outros é real”. E decretava: “O Cristo, natureza superior, não podia sofrer segundo o nosso modo de entender material e terra-a-terra, eis o que, daqui por diante, devemos aceitar como verdade”.

Herdeiros do melhor do Iluminismo, acostumados à análise crítica e ao raciocínio lógico-naturalista de Allan Kardec e de seus elevados Protetores, os espíritas deveriam preferir, segundo os rustenistas, a impostura à verdade; deveriam considerar como realidade histórica a mal-acabada reedição de um simples mito delirante concebido por longínqua seita gnóstica.

Aliás, risível é que se diga no opúsculo rustenista que “a tradição mais bela e generosa é a que nos legaram os grandes missionários da humanidade, sacrificando suas vidas”, pois o rustenismo nega o sacrifício do maior de todos estes missionários ao dizer que Jesus “não morreu efetivamente”; que, neste sentido, tudo não passou de “um espetáculo fictício e legendário”, destinado a entreter “o populacho e os crentes”. Tática semelhante à do ladrão astuto que grita: “Pega ladrão!”.








Capítulo 8

JESUS NÃO ERA UM AGÊNERE

Roustaing e seus discípulos se apoderaram de resultados de pesquisas inglesas e alemães, assim como das palavras atribuídas ao apóstolo Paulo em Hebreus, 7:3, para ajustá-los à “hipótese espiritualista” do Jesus fluídico.

Propagavam a inverdade de que os resultados de tais pesquisas teriam causado a Kardec “fundas decepções se vivera bastante para ver provado por R. Wallace, Hare, Varley, Crookes, Webert, Zöllner, etc., que um Espírito, sem ser um agênere, pode tomar um corpo fluídico, concretizado, tangível, e no qual se observam a circulação do sangue e todas as aparências da vida”.

Em absoluta desfaçatez, diziam que Kardec e “seus adeptos” alimentavam “um santo horror” às manifestações físicas, e que o mestre “pretendia que o corpo de um Espírito não podia ser senão uma aparência fluídica e que a nossa mão nenhuma resistência experimentaria tocando a aparição”.

Não leram, decerto, o item 125 de O Livro dos Médiuns, no qual Kardec afirmou que “o fenômeno dos agêneres é uma variedade da aparição tangível”. (Grifo meu.) Logo, pode ser tocada. No seu artigo “Os Agêneres”, publicado na Revista Espírita de fevereiro de 1859, o mestre explicou com clareza meridiana:

Se um Espírito tem o poder de tornar visível e palpável uma parte qualquer de seu corpo, não existe razão para que não aconteça o mesmo com os outros órgãos. [...] Se a duração da aparência corporal é limitada para certos Espíritos, podemos dizer que, em princípio, ela é variável e pode persistir mais ou menos tempo; pode produzir-se a qualquer momento e a qualquer hora. Um Espírito cujo corpo fosse inteiramente visível e palpável dar-nos-ia as aparências de um ser humano, poderia conversar conosco, sentar-se em nosso lar, como qualquer visita, pois que o tomaríamos como um de nossos semelhantes. [...] Como para nos entendermos necessitamos de um nome para cada coisa, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas os chama agêneres, para indicar que sua origem não é resultado de uma geração.

Ante o exposto, o que Roustaing teria querido dizer ao afirmar “que um Espírito, sem ser um agênere, pode tomar um corpo fluídico”? Em quê, afinal de contas, a teoria basilar da sua revelação difere da dos agêneres? Na duração? Mas o codificador afirmou que, “em princípio”, a duração do fenômeno pode persistir “mais ou menos tempo”. Em sua crítica a esta tese do corpo fluídico tangível de Jesus, Kardec afiançou ainda: “Nada há nisso, sem dúvida, de materialmente impossível para quem conhece as propriedades do envoltório perispiritual”.

Demais, em relação a esta nuança exclusivamente fenomênica, bem como no que se refere unicamente à interpretação das máximas morais do Cristo, é que Kardec disse, no princípio de seu artigo (de junho de 1866), não estar a obra de Roustaing, “em nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada por O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns”. Importa-me ressaltá-lo, porque estas palavras foram e são mais de uma vez deturpadas pela propaganda rustenista, que lhes atribui uma extensão que não possuem. Kardec foi bem explícito:

Dissemos que o livro do Sr. Roustaing não se afasta dos princípios do Livro dos Espíritos e do dos Médiuns. Nossas observações são feitas sobre a aplicação desses mesmos princípios à interpretação de certos fatos. É assim, por exemplo, que dá ao Cristo, em vez de um corpo carnal, um corpo fluídico concretizado, com todas as aparências da materialidade e de fato um agênere.

As partes correspondentes às de que tratamos no Evangelho Segundo o Espiritismo o são em sentido análogo. Aliás, como nos limitamos às máximas morais que, com raras exceções, são claras, estas não poderiam ser interpretadas de diversas maneiras; assim, jamais foram assunto para controvérsias religiosas. Por esta razão é que por aí começamos, a fim de ser aceito sem contestação, esperando, quanto ao resto, que a opinião geral estivesse mais familiarizada com a ideia espírita. (Grifos meus.)

Apenas quanto “à interpretação de certos fatos” é que a tese de que o corpo de Jesus era fluídico não se afasta dos princípios exarados em O Livro dos Espíritos e em O Livro dos Médiuns; afinal, agêneres ocorrem. No que disse, Kardec focalizou, portanto, apenas e tão-somente o viés fenomênico. Todavia, a tese rustenista se afasta, sim, e muito, dos princípios exarados em O Livro dos Espíritos e em O Livro dos Médiuns no que respeita à sua motivação. Segundo ela, “Jesus era demasiadamente puro para vestir a libré do culpado; sua natureza espiritual era incompatível com a encarnação material”. (Os Quatro Evangelhos, vol. 1, n. 14.)

Assim, o Cristo haveria tomado um corpo fluídico concretizado porque teria sofrido processo diferenciado de evolução. A encarnação humana seria exclusivamente um castigo resultante de uma queda, de verdadeira involução do Espírito. Jesus, pois, não se teria manifestado num corpo fluídico porque assim o quis, mas porque lhe era impossível encarnar num corpo normal, porquanto este se destinaria apenas a Espíritos falidos. Logo, no Jesus de Roustaing, o princípio do corpo fluídico justifica-se pelo da degradação de certos Espíritos, reedição do mito da queda angélica.

Kardec, por outro lado, deixou clara sua rejeição à tese rustenista por ser inviável moralmente, em função de preconizar um Jesus de aparência, a produzir ilusões aos olhos humanos e que não hesitou sequer em simular a gravidez em sua própria mãe. Em razão disto, desde sua crítica de junho de 1866, o codificador manifestou-se contrariamente a esta ideia; “em nossa opinião”, disse ele, “em nossa opinião, os fatos podem perfeitamente ser explicados sem sair das condições da humanidade corporal”.

Em 1868, no cap. XV, n. 66, de seu último livro, o mestre estabeleceu a posição espírita sobre o corpo de Jesus. E não estava mais apoiado apenas em sua opinião, e sim na “sanção do controle universal”. Já havia “recolhido documentos bastante numerosos nos ensinos dados de todos os lados pelos Espíritos, a fim de poder falar afirmativamente e ter a certeza de estar de acordo com a maioria”, como prometera no artigo de análise dos volumes rustenistas, quase dois anos antes.

Em sua crítica de junho de 1866, o codificador dissera que iria esperar os “numerosos comentários” que a tese de Os Quatro Evangelhos não deixaria de “provocar da parte dos Espíritos”. Como à época o movimento espírita não era paroquiano e não havia censura acerca de assuntos polêmicos, os “numerosos comentários da parte dos Espíritos” hão de ter ocorrido sem muita demora e as “objeções sérias” que, segundo Kardec, já em 1866, tinham sido feitas à tese roustainguista foram, por certo, confirmadas.

Roustaing mesmo nos leva a este entendimento, por meio de sua ironia sarcástica, mas patética, contida na declaração estapafúrdia de que “os espíritas, habituados, na sua maioria, a aceitar tudo, disseram: O chefe, o mestre certamente aplicou a sua contraprova universal aos três volumes de J.-B. Roustaing; não podemos, por conseguinte, comprar nem ler uma obra inútil”.

Possível também é inferir-se disto que até aqueles dissidentes declarados não duvidaram de que Kardec houvesse aplicado seus métodos à pretensa Revelação da Revelação; tanto que a crítica só incidiu sobre a sua suposta “carência de exatidão”. Diziam porém que o emprego que Kardec fazia de seus critérios era “prudente e judicioso”, embora, segundo eles, não fosse o mestre por tais meios “esclarecido de um modo seguro”. (Cf. cap. 5.) Oras! Acaso J.-B. Roustaing obteve sua Revelação de forma mais confiável, ao acatar o que por uma única médium foi transmitido? Aliás, não se há procedido deste jeito absolutamente temerário? Presentemente, não se aceita tudo com base apenas na “alta confiabilidade” de alguns poucos médiuns?

Nas páginas que foram suprimidas do prefácio de Os Quatro Evangelhos de 1920 se encontra, pois, a prova de que a universalidade do ensino dos Espíritos repeliu, sim, logo em seu nascedouro, as teses de rustenistas. É o que se pretende negar hoje mediante o fabrico mal-acabado de uma pseudouniversalidade para estes conceitos, na qual uma quantidade ínfima de médiuns, que se encontram sob idêntica influência institucional, recebe confirmações às fantasias rustenistas.

Em A Gênese, XV, 66, não se trata mais, portanto, da opinião do codificador sobre a natureza do corpo de Jesus, mas da concordância universal do ensino dos Espíritos a rejeitá-la em sua versão fluídica; donde o mestre estabelecer inapelavelmente sobre este sistema neodocetista:

[...] tudo, até ao último brado, no momento de entregar o espírito, não teria passado de vão simulacro, para enganar com relação à sua natureza e fazer crer num sacrifício ilusório de sua vida, numa comédia indigna de um homem simplesmente honesto, indigna, portanto, e com mais forte razão de um ser tão superior. Numa palavra: ele teria abusado da boa-fé dos seus contemporâneos e da posteridade. Tais as consequências lógicas desse sistema, consequências inadmissíveis, porque o rebaixariam moralmente, em vez de o elevarem. Jesus, pois, teve, como todo homem, um corpo carnal e um corpo fluídico, o que é atestado pelos fenômenos materiais e pelos fenômenos psíquicos que lhe assinalaram a existência.













Capítulo 9


TRADUTOR, TRAIDOR


Fiel à sua condição estatutária de integrante da “escola” rustenista e demonstrando concordar com o opúsculo Os Quatro Evangelhos de J.-B. Roustaing — Resposta a seus Críticos e a seus Adversários (1883), a Federação Espírita Brasileira ousou contrariar o codificador neste ponto de A Gênese: cap. XV, n. 66. Fez registrar em nota de rodapé à tradução de G. Ribeiro os seguintes dizeres, ainda dados a público em novas edições:

(1) Nota da Editora: Diante das comunicações e dos fenômenos surgidos após a partida de Kardec, concluiu-se que não houve realmente vão simulacro, como igualmente não houve simulacro de Jesus, após a sua morte, ao pronunciar as palavras que foram registradas por Lucas (24:39): — “Sou eu mesmo, apalpai-me e vede, porque um Espírito não tem carne nem osso, como vedes que eu tenho.”

Os inimigos de Kardec sempre insistem em que logo após a sua morte algo de revolucionário apareceu em termos de fenômenos e de comunicações mediúnicas. Todavia, para qualquer estudioso da codificação kardeciana e, sobretudo, do vasto acervo enfeixado nos tomos da Revista Espírita, isto não é uma verdade absoluta.

A F.E.B. não hesitou em usar o seu parque editorial para contestar o pensamento de Kardec, e sucessivas diretorias hão dado aval a este acinte, pois, como já disse, a contestação há sido reeditada. O texto consignado em Lucas 24:39 não há de ser fiel. Em nada se assemelha aos demais relatos da ressurreição de Jesus. Mesmo assim, a F.E.B. o ressalta para repreender Kardec. Trata-se da antilógica rustenista de que as Escrituras seriam infalíveis. Sob este império, os adeptos de Roustaing rejeitaram também, ainda no século 19, a tese dos espíritas para explicar o desaparecimento do corpo físico de Jesus no sepulcro:

O corpo de Jesus era um corpo terrestre qual os nossos e, como tal, produzido pelo concurso dos dois sexos; os anjos ou Espíritos superiores, tornando-o invisível, podiam subtraí-lo e o subtraíram do sepulcro no momento preciso em que, despedaçados os selos que lhe tinham sido apostos, a pedra que o fechava fora atirada para o lado. (Os Quatro Evangelhos. Prefácio. FEB, 1920.)

O fato, entretanto, é que esta hipótese decorre do verdadeiro n. 67 do cap. XV de A Gênese. Kardec, ali, falou de fenômenos de transporte e de invisibilidade. E quando recomenda, já em 1869, a leitura deste seu livro para contra-argumentar a tese do corpo fluídico de Jesus, diz claramente: “Sobre essa teoria, vide A Gênese segundo o Espiritismo, capítulo XV, ns. 64 a 68. (O Espiritismo na sua expressão mais simples e outros opúsculos de Kardec. Catálogo racional das obras para se fundar uma biblioteca espírita. Trad.: E. Noleto Bezerra, F.E.B.)

Kardec menciona, portanto, para o capítulo XV de sua obra, a existência dos números 64 a 68. Por que a quase totalidade das traduções registra apenas os ns. 64 a 67? Curiosamente, a nova edição febiana de A Gênese (10 mil exemplares, 02/2009), assinada pelo mesmo tradutor do catálogo kardeciano, também só inclui os ns. 64 a 67.

Em 1884, na Revista Espiritismo, de Gabriel Delanne, o biógrafo Henri Sausse já lançara questionamentos acerca da não coincidência de duas edições que cotejara de A Gênese. Leymarie disse apenas que o fato se verificou por Sausse haver-se baseado numa edição anterior à definitiva. (Cf. Resumo analítico das obras de Allan Kardec. p. 81. São Paulo: U.S.E./Madras, 2003.)

O incontestável, no exemplo aqui tomado, é que o verdadeiro n. 67 foi retirado e o n. 68, renumerado. Por isso, não creio também na explicação do antigo secretário de Kardec, A. Desliens (Revista Espírita, 15-03-1885), que atribui ao próprio mestre lionês, já quinze anos após a morte deste, essas alterações tão indisfarsavelmente cirúrgicas em A Gênese.

Como quer que haja sido, isto demonstra que, se não foi G. Ribeiro o mentor de tais modificações, outro decerto as fez bem antes dele. Consta que a 4.ª edição de A Gênese teve sua distribuição impedida pela morte repentina de Kardec em 31 de março, acabando a cargo da Livraria Espírita e das Ciências Psicológicas. Esta edição, revisada, corrigida e aumentada pelo autor, é que contém o texto definitivo. Impressa nas oficinas gráficas de Rouge Fréres e Cie., foi entregue em abril de 1869. Segundo F. Barrera, “uns meses mais tarde sai à venda, sob a responsabilidade de M. A. Desliens, diretor da Revista Espírita”, de comum acordo com “M. Bittard, gerente da livraria, e M. Tailleur”. (Ob. cit. p. 80.)

Desliens, em 1885, estava pressionado, decerto, não só por H. Sausse (1884), mas também pela ambiência de francos dissabores causados pelo cisma rustenista, declarado abertamente em 1883, na obra Os Quatro Evangelhos de J.-B. Roustaing — Resposta a seus Críticos e a seus Adversários, e que abrigava as mais ferinas ofensas e desleais críticas ao fundador da filosofia espírita, a quem nunca Roustaing se dirigiu senão por escrito.

O próprio Desliens confessa ao final de seu texto que, ali, quer "eliminar da família espírita uma causa de desunião". Só não nos explica por que as muitas alterações identificadas em A Gênese têm tanto a ver com o rustenismo. Ora! No que concerne ao exemplo aqui tomado, Kardec não poderia eliminar de seu texto justamente a explicação a que se propôs sobre o desaparecimento do corpo de Jesus no túmulo, até porque, como já disse, o próprio mestre a menciona como integrante de sua obra, ao indicar a leitura contra-argumentativa dos números 64 a 68 do cap. XV de A Gênese. F. Barrera, no sumário referente à obra kardeciana, registra sem equívoco: “Desaparição do corpo de Jesus, 64-68. (Ob. cit., p. 92.)

Quanto à nova edição febiana desta obra (10 mil exemplares, 02/2009), por Evandro Noleto Bezerra, cujo nome estampa mesmo a primeira capa, simplesmente não se sabe que edição francesa lhe serviu de base. Nada se diz ali a este respeito. Também não registra, insisto, o verdadeiro n. 67 do cap. XV de A Gênese, no que só seguiu a cartilha de G. Ribeiro. Isto, porém, não é de admirar, pois E. Bezerra considera os trabalhos deste último “irrepreensíveis”, como diz na introdução da sua Revista Espírita. Por que então os corrigiu nisto que naquilo? Qual dos dois é mais irrepreensível?

A edição comemorativa dos 150 anos de O Livro dos Espíritos, aliás, no seu índice geral, consegue até relacionar a palavra "colônia", inexistente na obra; remete, porém, o leitor aos ns. 234 a 236, que disto em absoluto não falam, e sim de mundos, sem vida física, servindo de habitação transitória a espíritos errantes. Intenta-se forçar a confirmação da existência, incerta para muitos, das "colônias espirituais", como "Nosso Lar", por exemplo. O mesmo esforço inglório se verifica no atinente à expressão "centros de força", listada como referente ao n. 140, onde Kardec só se reporta ao fluido vital repartido entre os órgãos físicos, havendo mais nos que são "centros ou focos de movimento" [centres ou foyers du mouvement]. Onde a locução "de força"? Ora! André Luiz, por duvidosa analogia aos chacras hindus, fala de "centros de força" no perispírito, mas isto absolutamente não corresponde ao assunto em foco no Livro dos Espíritos.

Tradutor, traidor. Já era a antiga dita latina.

Eis aqui abaixo, então, o verdadeiro n. 67 do cap. XV de A Gênese, desde sempre ausente das edições da F.E.B. e das demais que, em vez de traduções dos originais franceses, mais parecem ter oferecido ao rentável mercado meras versões das publicações febianas, exceção feita a esta honrosa citação:

67. A que se reduziu o corpo carnal? Este é um problema cuja solução não se pode deduzir, até nova ordem, exceto por hipóteses, pela falta de elementos suficientes para firmar uma convicção. Essa solução, aliás, é de uma importância secundária e não acrescentaria nada aos méritos do Cristo, nem aos fatos que atestam, de uma maneira bem peremptória, sua superioridade e sua missão divina. Não pode, pois, haver mais que opiniões pessoais sobre a forma como esse desaparecimento se realizou, opiniões que só teriam valor se fossem sancionadas por uma lógica rigorosa, e pelo ensino geral dos espíritos; ora, até o presente, nenhuma das que foram formuladas recebeu a sanção desse duplo controle. Se os espíritos ainda não resolveram a questão pela unanimidade dos seus ensinamentos, é porque certamente ainda não chegou o momento de fazê-Io, ou porque ainda faltam conhecimentos com a ajuda dos quais se poderá resolvê-Ia pessoalmente. Entretanto, se a hipótese de um roubo clandestino for afastada, poder-se-ia encontrar, por analogia, uma explicação provável na teoria do duplo fenômeno dos transportes e da invisibilidade. (O Livro dos Médiuns, caps. IV e V)”. [Rio de Janeiro, Léon Denis - Gráfica e Editora, 2.ª ed., março de 2008, 1.ª tiragem, do 1.º ao 3.º milheiro. Do original francês: LA GENÈSE. Les Miracles et Les Prédictions Selon Le Spiritisme. Quatrième Édition, 1868.]

Este número de A Gênese consta igualmente de sua primeira edição, como pode ser verificado nesta fotocópia do original, disponível na internet: http://books.google.com/books?id=ehc-AAAAcAAJ&dq=kardec+miracles+et+les+Productions&lr=&hl=pt-BR&source=gbs_navlinks_s

Nada disto, porém, inocenta Guillon Ribeiro, porquanto ousou, sim, em função do rustenismo, suas próprias alterações à obra de Kardec.

1 - Registrou, em A Gênese, I, 56, que os ensinos espíritas "completam as noções vagas que SE tinham da alma", pois, como rustenista, era bibliólatra, e lhe pareceu errada e injusta a expressão original de Kardec, que não tinha os mesmos pruridos, afinal, as noções dadas por Jesus sobre a alma foram vagas mesmo, em função de não poderem ser de outra forma. O fato é que "complètent les notions vagues qu'IL avait données de l'âme" jamais poderá ser traduzido de forma indeterminada.

["ELE", e não "SE".]

2 - Chamou Jesus de "Senhor" pelo mesmo motivo acima aduzido, distorcendo a postura kardeciana nos textos de A Gênese XV, 61, e em XVII, 37. Eu não confiaria tanto num tradutor que registra "voyaient JÉSUS et le touchaient" como "viam o SENHOR e o tocavam"... "le sens de SES paroles" como "o sentido das palavras DO SENHOR"...

["Jesus", e não "Senhor"; "suas palavras", e não "as palavras do Senhor".]

3 - Acrescentou a inexistente palavra "moral" à expressão "absoluta perfeição", no item VI da Introdução de O Livro dos Espíritos, porquanto o rustenismo assegura que só a absoluta perfeição moral pode ser atingida, não ocorrendo o mesmo, segundo ele, com a perfeição intelectual. G. Ribeiro quis, portanto, corrigir Kardec. A nova tradução de Evandro Bezerra acertou isso, apesar de este dizer, na Introdução da Revista Espírita, que o trabalho de Guillon é irrepreensível.

[la perfection absolue: "a perfeição absoluta", e não "a absoluta perfeição MORAL".]

4 - Registrou que o arcanjo começou “por ser átomo”, e não "pelo átomo", no n. 540 de O Livro dos Espíritos, para acomodar o texto à noção monista substancial da queda angélica, de P. Ubaldi, do qual G. Ribeiro foi tradutor e adepto entusiasta. Ora! Se digo que o arcanjo começou PELO átomo, sou dualista. O arcanjo, princípio inteligente, é espírito, e o átomo é matéria. Se digo que o arcanjo começou por SER átomo, sou monista substancialista, e creio que o arcanjo, o princípio inteligente, congelou-se no evento da queda, e passou a ser o próprio átomo, a própria matéria mais não seria, assim, que o espírito condensado pela queda. Alguns ubaldistas modernos já citam essa tradução tendenciosa de Guillon pra fundamentar o ubaldismo e suas teses como compatíveis com o Espiritismo. De mais a mais, por que traduzir "par l´atome" como "por ser átomo"?

["começou PELO átomo", e não "começou por SER átomo".]

5 - Em O Evang. Seg. o Espiritismo, XX, 5, a informação precisa de que "CHEGASTES ao tempo" se tornou em "APROXIMA-SE o tempo" porque o rustenismo defende o "final de ciclo" por catástrofes anunciadoras da volta de Cristo. Como "nada" assim tinha ocorrido, Ribeiro quis corrigir agora o Espírito de Verdade. "Vous touchez au temps" jamais poderá ser traduzido por "Aproxima-se o tempo".

["atingistes, ou chegastes ao tempo", e não "Aproxima-se o tempo".]

Mas não falemos apenas dos livros com chancela da “Casa-Máter”. Também houve modificações na tradução adotada pelo I.D.E. para um texto da Revista Espírita de abril de 1869, no qual Kardec, na verdade, diz que “a alma humana, emanação divina, traz em si o germe ou princípio do bem [...]”. (EDICEL. Vol. XII. p. 102-103. Trad.: Júlio Abreu Filho.)

Contudo, o Sr. Salvador Gentile se arrogou a condição de mais douto em matéria de Espiritismo do que o codificador da doutrina e acresceu ao original três palavras: “e do mal”, transformando a sábia instrução do mestre nesta aberração filosófica: “A alma humana, emanação divina, leva nela o germe ou princípio do bem e do mal [...]”. (Grifo meu.)

Eis o francês: “L'âme humaine, émanation divine, porte en elle le germe ou principe du bien qui est son but final”. Ante o pensamento completo de Kardec, não há dúvidas: “A alma humana, emanação divina, traz em si o germe ou princípio do bem, que é o seu objetivo final”. Como poderia o mal ser objetivo final da alma, sendo esta proveniente de Deus?

De tudo isto, resta o aparente bem de os originais franceses se encontrarem disponíveis em meios de acesso digital pela internet a fora e, pasmem, a F.E.B. e o I.D.E. contribuíram para tanto. Mas estejamos atentos, pois esses "originais" não constituem imagens das edições francesas, e sim digitalizações, o que pode ensejar erro material ou até manipulação.

[ Meus cumprimentos, aqui formalmente consignados, aos bons amigos Caio Cardinot, Lair Amaro Faria, Rodrigo Luz, Tiago de Lima Castro, Luciano Ferreira e Sílvia R. O., por valiosas contribuições ao corpo de informes deste capítulo. ]


Capítulo 10

O DOGMA DA ENCARNAÇÃO PELO ESPÍRITO

Roustaing queria tanto ser lembrado que sofismou ante o insofismável. Por pura pretensão à singularidade, chegou a negar a evidente condição de agênere ao seu Jesus de “corpo fluídico concretizado”. E isto apenas demonstra o fato de os rustenistas serem tão confusos que não se entendem mesmo entre si.

Faz prova desta realidade o Sr. Ismael G. Braga, em Elos Doutrinários. Diz ali que “quem nega que Jesus tenha sido um agênere nega também a codificação kardeciana, não é espírita”. Então, Roustaing e seus discípulos também estão inclusos neste anátema, ou seja, não são espíritas, pois negaram que Jesus tenha sido um agênere, ao preferir a ginástica verbal de que estava “encarnado pelo espírito”, numa “incorporação fluídica”.

O fato é que Roustaing tentou dissimular a paridade da sua Revelação com o docetismo (do grego dokein, aparecer). Entretanto, ele e seus reveladores é que diziam sobre Jesus que, “para aparecer na terra, era-lhe necessário revestir um corpo de modo a produzir ilusão aos olhos dos homens”. O próprio Gomes Braga, ao demais, assegura em sua obra, p. 148, 3.ª ed., F.E.B.: “Sim, confirmamos, a obra de Roustaing ressuscitou o pensamento fundamental do Docetismo — o corpo fluídico de Jesus”.

Talvez se devesse falar em “neodocetismo”. Esta palavra melhor satisfaria à vaidade de Roustaing e seus discípulos, como faz certo esta ilação: “O movimento é a lei inelutável do progresso. Ficar estacionário é votar-se ao esquecimento e não deixar de si o mais ligeiro traço”. É o que se pode inferir também do que citaram de Michelet, que “um credo se torna uma barreira intransponível, se formulado pela infalibilidade. Tem então vida relativamente curta e não é comumente aceito senão por uma categoria de indivíduos votados à morte, enquanto que a humanidade avança e o perde de vista”.

Preocupados estavam, pois, em deixar de si traços à posteridade. Como isto viria a ser possível, todavia, se tudo lhes parecia chancelar a “insuportável” grandeza de Kardec e seu triunfo perene ao lado do Espírito de Verdade? Só lhes restava exortar em falso: “Não nos criemos semelhantes barreiras, ó espíritas, irmãos nossos; caminhemos para diante como homens livres”.

Mal sabiam, entretanto, que, ao quererem “libertar-se” de Kardec, só passariam à história representando o triste papel dos que, primeiramente, tentaram em vão arranhar o imponente monumento à verdade maior do Mestre dos mestres: a codificação kardeciana.

O que as pesquisas inglesas e alemães comprovaram foi a existência de agêneres, ou seja, de seres que, mesmo sem ser gerados, podem apresentar-se como se da vitalidade dos encarnados partilhassem. Contudo, não são mais que Espíritos desencarnados, cujo perispírito, excepcionalmente, pode tornar tangíveis os seus órgãos, possibilitando, sim, nas palavras de Roustaing, “todas as aparências da vida”.

Entretanto, apesar de todas as semelhanças com a carne, o corpo fluídico concretizado não se destina a efetiva permanência em nossa biosfera. Tais pesquisas apenas constituíram mais provas de que a matriz da vida física é de fato espiritual. Nada além disto. Que fizeram então Roustaing, seus reveladores e discípulos? Recorreram a outro sofisma, um estranho dogma de sua “escola”, produto de pura jogatina de palavras. Falaram não de agênere, mas de “encarnação fluídica” ou “incorporação fluídica”, “do Cristo encarnado pelo espírito”.

Enquanto L. Denis e G. Delanne comentaram os resultados das pesquisas posteriores à morte de Kardec de maneira favorável à obra de seu mestre, apresentando os resultados a título de simples corroboração dos volumes kardecianos, Roustaing e seus discípulos se apoderaram destes dados para intentar uma depreciação dos alcances da codificação espírita.

Capítulo 11

O KARDEC ARREPENDIDO DA F.E.B.

O que dizer da publicação da mensagem apócrifa recebida por Hernani T. Sant’Anna, no Grupo Ismael, da Federação Espírita Brasileira, em 14 de junho de 1979? Como puderam cometer o acinte de apresentá-la? Quem deixa de se indignar ante aquele Kardec arrependido, à beira da angústia, sancionando o expansionismo rustenista da F.E.B. em completo detrimento do seu próprio trabalho? O tal Kardec chega a afirmar que “se trata agora de nova e verdadeira entrega do Paracleto a todos os povos da Terra”. Incrível! Uma nova e, desta vez, verdadeira entrega do Paracleto. E a codificação kardeciana? Um falso Consolador decerto.

Daí, segundo ainda o tal Kardec em ato-de-contrição, a necessidade — pasmem — de “que tudo fosse revisto e consolidado; aplainadas, com todo o cuidado, arestas e asperezas; corrigidas algumas omissões; podados certos excessos de interveniência humana; esclarecidas determinadas dúvidas de interpretação”. (Cf. WANTUIL & THIESEN. Allan Kardec. Meticulosa Pesquisa Biobibliográfica. Volume III. Apêndice. Item XXV. SANT’ANNA, Correio Entre Dois Mundos. Mensagem.)

Lamentavelmente, fatos assim não são raros, haja vista as “instruções de Allan Kardec aos espíritas do Brasil”, do livro A Prece, felizmente, não mais publicadas; as supostas comunicações de Kardec no “Cenáculo” da F.E.B. em Brasília, e quejandos. É de se sentir saudades da visão otimista do notável Ernesto Bozzano, em carta a Rango D´Aragona, de 18 de fevereiro de 1939:

Voltando à figura do Cristo, que aí [no Brasil] querem rebaixar às fantasias de um desconhecido como J.-B. Roustaing, se você leu minha mensagem ao Congresso Espiritualista de Barcelona, constatará novamente o meu pensamento. O maior profeta de Deus, ou o maior iniciado, como se queira chamá-lo, ele ficará como luz e guia do nosso planeta. [...] O caso de J.-B. Roustaing, sob o título absoluto de Revelação da Revelação, é um fato dogmático, feliz e universalmente liquidado. (O Verbo e a Carne. Erros Doutrinários. O Sentido do Roustainguismo. V.)

Capítulo 12

O KARDEC VERDADEIRO DE CAIRBAR SCHUTEL

Embora o codificador do Espiritismo não fosse pessoalmente infalível, soube proceder sem erros em sua missão. Encarregado pelo próprio Cristo de “restabelecer todas as coisas, isto é, pô-las de acordo com o verdadeiro pensamento de seus ensinos”, quem poderá contestar que Kardec o tenha feito de modo irrepreensível? (Cf. A Gênese, I, 26; XVII, 37 e 65.)

Jesus é um Espírito puro que se tornou homem de carne e osso, sangue e água; e nasceu, viveu e, sim, efetivamente, morreu, para constituir-se nosso único guia e modelo. O Cristo foi um Espírito encarnado e agora o é desencarnado, mas tem um “novo nome”: L'ESPRIT DE VÉRITÉ.

Já é hora de o movimento espírita acordar do sono letárgico da salvação pessoal, de cunho egoístico, igrejeiro, e retomar seus legítimos rumos, certo de que a justiça maior se compadecerá dos “guias cegos” e dos que se põem com eles no rumo de tão profundos abismos.

Irão arrepender-se de futuro e serão readmitidos no serviço do Cristo. Em tudo, porém, já terão aprendido a se conservar fiéis àquele que foi consagrado como “amigo do noivo”. (João 3:29.)

Sim, tinha razão Cairbar Schutel: Elias, João Batista e Allan Kardec, “os três são um mesmo Espírito”. (Parábolas e Ensinos de Jesus. O Maior Profeta.)

Moisés, ao contrário do que preconizaram os guias de Roustaing, não se reencarnou posteriormente nas figuras de Elias e João Batista. Estes últimos são uma só individualidade imortal; Moisés, contudo, é outra, e não estava no monte em que Jesus se transfigurou por obra da dissimulação de um Espírito de mesma elevação, que tomara sua “figura”, sua “aparência”, como ensinaram os instrutores rustenistas. (Cf. cap. 14.)

Ele próprio, Moisés, se fez visível, assim como presente estava Elias, que, segundo Jesus, viria uma vez mais, para restabelecer todas as coisas, justamente na figura de Kardec. (Cf. ALEIXO. Reencarnação. Lei da bíblia, lei do evangelho, lei de Deus. Bragança Paulista: Lachâtre, 2003, cap. 20.)

PARTE II

DAS CONTROVÉRSIAS E CONTRADIÇÕES

DE OS QUATRO EVANGELHOS


Capítulo 13

O RUSTENISMO E AS OBRAS DE CHICO XAVIER

O rustenismo é uma deturpação perigosa, porque disposta mesmo em livros que trazem a assinatura da abençoada mediunidade de Chico Xavier. Conforme prevê o assim chamado “Pacto Áureo” (05/10/1949), “cabe aos espíritas do Brasil porem em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de maneira a acelerar a marcha evolutiva do Espiritismo”.

Pois bem! Isto passou ao art. 63 do estatuto da Casa-Máter, que registra desde 1991: “O Conselho Federativo Nacional da FEB fará sentir a todas as sociedades espíritas do Brasil que lhes cabe pôr em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, pátria do Evangelho”.

Oras! Entre outras piadas de além-túmulo, no capítulo I desta obra, “a amargura divina” de Jesus “empolga” toda uma “formosa assembleia de querubins e arcanjos” e ele, “que dirige este Globo”,[1] não sabe sequer onde é o Brasil.

Não bastasse isto, no capítulo XXII, o confuso Roustaing emerge do estatuto da F.E.B. para ser equiparado a L. Denis e a G. Delanne, figurando adiante destes na condição de cooperador de Kardec para “o trabalho da fé”.

Oras! Por que Humberto de Campos se referiu a Roustaing, Denis e Delanne em Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho (1938) e, no livro Crônicas de Além-Túmulo (1937), reportou-se tão-só a Denis e a Delanne?

Concordo com Júlio Abreu Filho: “Nem uma palavra sobre Roustaing! [...] É incrível que o Espírito do ativo maranhense tivesse cochilado na primeira mensagem”. (Cf. O Verbo e a Carne. Erros Doutrinários. III.)

Em O Consolador há, igualmente, graves erros e contradições. Houve afronta à integridade conceitual do movimento espírita, do tipo “pílula dourada”, sob a chancela do trabalho do médium de maior projeção dos últimos tempos, ainda que à sua provável revelia? Penso que sim. Mas como prová-la? Da própria F.E.B., em 1942, Chico Xavier recebeu a informação de que seus originais, após publicação, eram inutilizados por aquela instituição. (Cf. SCHUBERT, Sueli Caldas. Testemunhos de Chico Xavier, p. 23-24. Apud DA SILVA, Gélio Lacerda. Conscientização Espírita. Chico Xavier, Emmanuel e a F.E.B.)

Existe, no entanto, uma contradição que, publicada, dispensa qualquer consulta aos originais de Chico para confirmar o douramento da pílula rustenista em sua obra: o problema do Espírito Santo, expresso nos números 303 e 312 de O Consolador. O Espírito Santo não pode ser “a centelha do espírito divino, que se encontra no âmago de todas as criaturas” e, a um só tempo, uma “falange de Espíritos”. Só a primeira resposta, à questão 303, faz sentido à luz do Evangelho e da codificação kardeciana. Já a segunda, à pergunta 312, reflete o rustenismo e, se for interpolação febiana, que ironia, porque se esmera em elucidar uma outra interpolação, mas bíblica. Lei do retorno? Talvez.

O texto oferecido pelo interlocutor da F.E.B. (negritado abaixo), conforme parecer insuspeito do tradutor d´A Bíblia de Jerusalém (Paulinas, 1985), apresenta “um inciso ausente dos antigos manuscritos gregos, das antigas versões e dos melhores manuscritos da Vulgata, [...] uma glosa marginal introduzida posteriormente” em 1.ª João, cap. 5, vv. 7-8, onde se lê: “Porque há três que testemunham [no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo, e esses três são um só; há três que testemunham na terra]: o espírito, a água e o sangue, e esses três são um só”.

Portanto, o interlocutor febiano, no n. 312 de O Consolador, driblou a parte do texto bíblico que se refere ao testemunho de Jesus Cristo em “espírito, água e sangue”, para só se referir à glosa marginal, ensejando esta interpretação da Trindade: “Pai” = Deus, “Verbo” = Jesus, e “Espírito Santo” = “legião dos Espíritos redimidos e santificados que cooperam com o Divino Mestre, desde os primeiros dias da organização terrestre”.

De fato, uma definição tipicamente rustenista do Espírito Santo, assim como, por vezes, do Espírito da Verdade e mesmo do Consolador: “conjunto dos Espíritos puros, dos Espíritos superiores e dos bons Espíritos”; ou “falange sagrada dos Espíritos do Senhor”. (Os Quatro Evangelhos, vol. 1, n. 9; vol. 2, n. 187. vol. 4, n. 1.)

Quanto ao Espírito da Verdade, é curioso, o rustenismo muito se divide, porque subsiste na obra a instrução dos bons Espíritos que, em Bordéus — na casa de Roustaing e na de Sabo —, chegaram a revelar que se tratava de Jesus, como o próprio advogado fez questão de consignar a Kardec, bem antes do cisma que promoveria. (Cf. Revista Espírita. Junho/1861. Correspondência.)

Evidentemente, os Espíritos que passaram a substituir os Iniciadores se valeram de uma autêntica revelação destes para impor aos bordeleses mais incautos lamentáveis sistemáticas a título de comandos do Cristo, de Moisés, dos evangelistas, de Maria e dos apóstolos. J.-B. Roustaing, infelizmente, faliu ante provável missão que não chegou a cumprir, tornando um pouco mais árdua a gigantesca tarefa do gênio lionês. Não foi sem motivo que disse o mestre sobre o livro rustenista: “[...] de par com algumas coisas duvidosas, segundo o nosso ponto de vista, outras contém incontestavelmente boas e verdadeiras [...]”. (Revista Espírita. Junho/1866. Os Evangelhos Explicados.)

Emmanuel, então, seria rustenista? O meio influenciou Chico Xavier, cercado de febianos rustenistas por décadas? A F.E.B. interpolou textos, atribuindo-os ao ex-senador de Roma? Como sabê-lo? O mestre J. Herculano Pires dizia e com ele concordo:

[...] basta uma apreciação da obra gigantesca da psicografia de Chico para se compreender que Roustaing não foi e não é admitido ao lado de Kardec no campo doutrinário por Emmanuel ou Chico. (Cf. A Causa da Verdade.
Sobre o livro Kardec e não Roustaing, de Luciano Costa.
http://www.editorapaideia.com.br/default.asp?id=10&acao=1&id_artigo=29).

Entretanto, aduzo a isto que há um prefácio amistoso atribuído a Emmanuel ao livro Vida de Jesus, de Antonio Lima (F.E.B.) Na obra é defendida a tese do corpo meramente fluídico do Cristo. Da mesma forma em relação a Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, mencionando Roustaing ao lado de Delanne e Denis como cooperador de Kardec, e que é prefaciado por Emmanuel. Sobre A Grande Síntese, de P. Ubaldi, escritor que reeditou a queda angélica e a involução como pressuposto para a evolução, postulados afins do rustenismo, Emmanuel teria dito:

Aqui, fala a Sua Voz [de Jesus] divina e doce, austera e compassiva. [...] é o Evangelho da Ciência, renovando todas as capacidades da religião e da filosofia, reunindo-as à revelação espiritual e restaurando o messianismo do Cristo, em todos os institutos da evolução terrestre. Curvemo-nos diante da misericórdia do Mestre e agradeçamos de coração genuflexo a sua bondade. Acerquemo-nos deste altar da esperança e da sabedoria, onde a ciência e a fé se irmanam para Deus. (Ob. cit. 18ª ed. Trad.: Carlos Torres Pastorino e Paulo Vieira da Silva, vol. II.)

Ante um comunicado destes, natural é que alguns mais exaltados digam que Kardec foi superado por Ubaldi. Mas Emmanuel também lhe aplicou um belo corretivo quanto à verdadeira natureza do Espiritismo e ao perigo de Ubaldi estar “plasmando com a própria riqueza cerebral o catafalco de sua pretensa grandeza”. (Cf. MARTINS & Damasceno. Para Entender Pietro Ubaldi. Anexo. No Roteiro Cristão.)

Contradições assim, entre tantas outras, é que me levam a pensar ... Pergunto: quantos episódios podem ter ocorrido em relação a Ubaldi, Ramatis e Roustaing? Quantos adeptos destas doutrinas heterodoxas hão de ter pleiteado para publicações afins o “aval” dos instrutores de Chico Xavier na intenção de facilitar a infiltração de tais obras no movimento espírita? E Chico? Lia tudo? Os Espíritos que davam os “avais” eram mesmo seus guias?

Dadas estas circunstâncias, reservo-me o direito de duvidar, até porque a codificação espírita assegura que “o melhor [médium] é aquele que, simpatizando somente com os bons Espíritos, tem sido o menos enganado”, assim como preconiza que, “por muito bom que seja, um médium jamais é tão perfeito, que não possa ser atacado por algum lado fraco”. (O Livro dos Médiuns, XX, 226, 9.ª e 10.ª)

Kardec já advertira que, "pelo fato mesmo de o médium não ser perfeito, Espíritos levianos, embusteiros e mentirosos podem MISTURAR-SE em suas comunicações, ALTERANDO-LHES A PUREZA". Consignara o mestre que este é, sim, "o maior escolho do Espiritismo" e que o meio determinante para evitá-lo é o "discernimento", porquanto "as boas intenções, a própria moralidade do médium nem sempre bastam para evitar a intromissão dos Espíritos levianos, mentirosos e pseudossábios nas comunicações". (Cf. Revista Espírita. Fevereiro de 1859. Escolhos dos Médiuns.)

Seja como for, uma coisa é certa: só se pode julgar do que foi efetivamente publicado. Assim, cabe a nós, espíritas sérios, encetar a análise rigorosa de qualquer obra mediúnica segundo os padrões de Kardec. Este deve ser o procedimento de todos os adeptos, ao qual a produção atribuída a Emmanuel, ou a qualquer outro Espírito, não pode nem deve escapar.

Não passa de temeridade, com lamentáveis consequências já em curso, a ideia de que não se deve agir deste modo para não confundir ou chocar os simples. Na prática, isto é licitar ao Espiritismo que erros manifestos sejam arrolados à conta de patrimônio das consolações que prodigaliza a seus adeptos.

Encaminhemos os simples à segurança e pureza da fonte original do Espiritismo, à codificação kardeciana, em vez de entretê-los com equívocos que, mais tarde, os surpreenderão desprevenidos e, quem sabe, os convidarão à apostasia. O que disse Erasto a Kardec?

[...] Devem riscar-se, sem piedade, toda palavra, toda frase equívoca e só conservar do ditado [dos Espíritos] o que a lógica possa aceitar, ou o que a doutrina já ensinou. [...] Não admitais senão o que seja, aos vossos olhos, de manifesta evidência. Desde que uma opinião nova venha a ser expendida, por pouco que vos pareça duvidosa, fazei-a passar pelo crisol da razão e da lógica e rejeitai desassombradamente o que a razão e o bom-senso reprovarem. Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea. Efetivamente, sobre essa teoria poderíeis edificar um sistema completo, que desmoronaria ao primeiro sopro da verdade, como um monumento edificado sobre areia movediça [...]. (O Livro dos Médiuns, 230.)

Para o movimento espírita, no entanto, isto não há passado de meras frases de efeito, inseridas em retóricas quase sempre desmentidas pelo cotidiano institucional da maior parte dos adeptos do espiritismo-à-moda-da-casa-máter.

Sobre o assunto espinhoso deste capítulo, decerto que muito valem as reflexões propostas nas postagens de nosso valoroso confrade Artur Felipe de A. Ferreira, neste endereço: http://coerenciaespirita.blogspot.com/2008/10/de-que-lado-est-emmanuel.html



[1] Na Revista Espírita de janeiro de 1864, o sábio Hahnemann afirma que o Espírito de Verdade dirige este Globo. Cf. Um caso de possessão. Senhorita Julie.

Capítulo 14

ESTRANHEZAS DO ENSINO RUSTENISTA

1.º — Moisés, Elias e João Batista “são uma mesma e única entidade, o mesmo Espírito encarnado três vezes em missão”. Então, quando falaram com Jesus no monte em que se transfigurou, um deles, na verdade, não era quem parecia ser, pois “um Espírito superior, da mesma elevação que Elias e João, tomou a figura, a aparência de Moisés”. (Os Quatro Evangelhos, 2.º vol., n. 195, p. 497-498.)

2.º — “O mineral morre quando é arrancado do meio em que o colocara o autor da natureza; a pedra tirada da pedreira, o minério extraído da mina, deixando de existir [...]; a essência espiritual, que residia nas paredes do mineral, retira-se daí por uma ação magnética, dirigida e fiscalizada pelos Espíritos prepostos, e é transportada para outro ponto”. (Os Quatro Evangelhos, 1.º vol., n. 56, p. 291.)

3.º — Jesus “não nasceu do homem; a matéria perecível não entrou por coisa alguma no conjunto das suas perfeições”; “não esperou, sepultado no seio de uma mulher, a hora do nascimento; tudo foi aparência, imagem, no ‘nascimento’ do mestre, na ‘gravidez’ e no ‘parto’ de Maria”; “o aparecimento de Jesus na terra foi uma aparição espírita tangível”; portanto, não nasceu, não viveu e não morreu, senão aparentemente, “de maneira a produzir ilusão”; começou enganando a própria mãe, que “teve completa ilusão do parto e da maternidade”. (Os Quatro Evangelhos, 1.º vol., n. 47, p. 166/67 e 243/44.)

4.º — Jesus revestia, “aos olhos dos homens, as aparências da infância, da adolescência e da idade viril na humanidade terrestre”; lactente ainda, ele era, apenas “na aparência, pequenino”, e, portanto, não era mentalmente infantil, permanecendo neste absoluto despudor, segundo a tese rustenista, “até contar a criança dois ou três anos”. (Os Quatro Evangelhos, 1. vol., n. 47, p. 166/67 e 243/44.)

5.º — Jesus, na sua estada em Jerusalém, “ao abrir-se o templo, entrava com a multidão e com a multidão saía, quando o templo se fechava; uma vez fora e longe dos olhares humanos, desaparecia, despojando-se do seu invólucro fluídico tangível e das vestes que o cobriam, as quais, confiadas à guarda dos Espíritos prepostos a esse efeito, eram transportadas para longe das vistas e do alcance dos homens; ao reabrir-se o templo, reaparecia entre os homens, retomando o perispírito tangível e as vestes, que o faziam passar por um homem aos olhos humanos”. (Os Quatro Evangelhos, 1.º vol., n. 47, p. 251/52.)

6.º — A evolução espiritual se dá em duas linhas: a dos Espíritos que se desviaram para o mal no início de suas jornadas e, portanto, ficaram sujeitos às reencarnações humanas, e a dos Espíritos que nunca se afastaram do bem e, por isto, evoluem pelos mundos etéreos, em linha reta, após superarem os reinos inferiores, como se o homem não fosse acontecimento natural, mas desastre espiritual. Estes mesmos Espíritos bons, contudo, são passíveis de cometer um destes três “pecados”: o ciúme, a inveja e o ateísmo; quando, então, cometem um deles, são obrigados a encarnar em “substâncias humanas”, descritas — pasmem — como “larvas informes” e chamadas “criptógamos carnudos”, “uma massa quase inerte, de matérias moles e pouco agregadas, que rasteja ou antes desliza, tendo os membros, por assim dizer, em estado latente”. (Os Quatro Evangelhos, 1.º vol., n. 57 a n. 59, p. 307-313.)

Não importa ao rustenismo, pois, que O Livro dos Espíritos haja ensinado, categoricamente, que seguir o caminho do bem, mesmo desde o princípio da consciência de si, não isenta os Espíritos da necessidade de encarnação e, portanto, da sua união com o corpo; que todos são criados simples e ignorantes e se instruem nas lutas e tribulações desta vida, para que adquiram experiência e, assim, necessariamente, conheçam o bem e o mal, só mediante o que podem atingir por mérito a primeira ordem, a perfeição, ainda que se hajam desviado pelo caminho do mal. (Cf. Ob. cit. ns. 115, 115-a, 119, 122, 124, 125, 126, 133, 133-a, 634.)

7.º — “A encarnação humana não é uma necessidade, é um castigo; [...] em princípio, é apenas consequente à primeira falta, àquela que deu causa à queda”. (Os Quatro Evangelhos, 1.º vol., n. 59, p. 317 e 324.) Por isto, Roustaing submete um texto de Kardec, da Revista Espírita de junho de 1863 (Do Princípio da Não-Retrogradação do Espírito), ao exame dos seus “evangelistas”, que concluem dizendo que os que pensam ser a encarnação uma necessidade geral (Kardec à frente) “ainda não foram esclarecidos, ou não refletiram bastante”. (Os Quatro Evangelhos, 1.º vol., n. 59, p. 321.)

8.º — Espíritos que já “trabalham na constituição de planetas” podem ser “dominados pelo orgulho, que os leva a desconhecer a mão diretora do Senhor, ou a duvidar do seu poder, duvidando de suas próprias forças”. Então “soa a hora da encarnação humana correspondente ao delito” e, “em tal caso, o planeta, que não pode ficar sujeito a perecer por lhe faltar o primitivo obreiro, continua sua marcha progressiva sob os cuidados e a ação de um Espírito superior que vem substituir aquele que faliu”. (Os Quatro Evangelhos, 1.º vol., n. 59, p. 325-326.)

9.º — Contrariando o princípio anterior, os reveladores de Roustaing dizem que “cada mundo, qualquer que ele seja, tem por protetor e governador um Espírito, um Cristo de Deus, cuja perfeição se perde na noite das eternidades, infalível, que nunca faliu”, o qual lhe “presidiu à formação, encarregado do seu desenvolvimento e do seu progresso, assim como dos de todos os Espíritos que o habitam, a fim de os conduzir à perfeição”. (Os Quatro Evangelhos, 1.º vol., n. 60, p. 329.)

Note-se a ambiguidade da linguagem: “infalível, que nunca faliu”. Se é infalível, nunca falirá. Se nunca faliu, há ainda a possibilidade de falir. Este Espírito condutor foi chamado no tópico 8.º de “primitivo obreiro”; portanto, a meio do caminho de sua tarefa, pode falir.

Quanto a este tópico 9.º, já em 1862, na própria Bordéus de Roustaing, um guia espiritual dissera que os Espíritos encarregados, em cada mundo, da execução das leis de Deus, são agentes de sua vontade sob a direção de um delegado superior.

Segundo o guia espiritual, este delegado pertence, necessariamente, à ordem dos Espíritos mais elevados (os puros, portanto), porque seria injúria à sabedoria divina crer que ela abandonasse à fantasia de uma criatura imperfeita o cuidado de velar pela realização do destino de milhões de suas próprias criaturas.

Explicou também que encarnados e desencarnados são as abelhas que trabalham na edificação da colmeia que é o mundo, sob a direção do “Espírito-chefe”, do “delegado superior” diante de Deus. E afirmou o guia bordelês que, sem dúvida, o Espírito-chefe pode encarnar-se, sim, quando recebe esta missão, por ser a sua presença necessária ao progresso. (Revista Espírita. Setembro/1868. A Alma da Terra. Sociedade Espírita de Bordéus. Abril de 1862.)

Tal ensino aparece incorporado à codificação espírita, quando Kardec assegura que “os Espíritos da categoria mais elevada podem manifestar-se aos habitantes da Terra ou encarnar em missão entre estes”, que é, afinal, o caso de Jesus. (A Gênese XIV, 9; XV, 2.)

10.º — As missões dos cristos de Deus, os messias, os puros Espíritos da definição de Kardec são “relativas, conforme o grau e o desenvolvimento dos planetas”. Até aqui, cópia de O Céu e o Inferno, 1.ª Parte, cap. III, ns. 12 e 13. Avançaram, porém, os guias docetas e fixaram esta doutrina absurda: “às terras ingratas, quais a vossa, eles pregam o amor, e aos mundos mais elevados levam as grandes descobertas, as ciências e as artes”. (Os Quatro Evangelhos, 1.º vol., n. 60, p. 329.)

11.º — “Para o Espírito, qualquer que ele seja, o progresso intelectual é indefinido, restando-lhe sempre aquisições a fazer em ciência universal, sem que haja limite algum para esse constante progredir.” (Os Quatro Evangelhos, 1.º vol., n. 60, p. 327.)

12.º — “[...] o Espírito que, desde a sua origem, progrediu sem se afastar nunca do caminho que lhe é traçado, está sempre mais adiantado em ciência universal do que outro que se purificou depois de haver falido. Ora, naturalmente aos mais adiantados devem tocar as missões mais importantes no universo.” (Os Quatro Evangelhos, 1.º vol., n. 60, p. 330.)

13.º — Desmentindo os princípios anteriores, afirmam os reveladores de Roustaing que todos os Espíritos, “iguais na origem, no ponto de partida, iguais vêm a ser no ponto de chegada”: a “perfeição sideral”. Nesta, segundo eles, o Espírito é infalível moralmente, mas não intelectualmente. E mesmo esta infalibilidade moral, ele só a teria por força de estar “assistido e sustentado pelos que lhe estão superiores em ciência”, porque, dizem, haveria hierarquia entre puros Espíritos sob o ponto de vista da “ciência universal”. (Os Quatro Evangelhos, 1.º vol., n. 56, p. 326 e 328; n. 194, p. 477.)

14.º — Os reveladores de Roustaing decretam aqui o seu maior delírio conceitual: “[...] vossos médiuns só entrarão no gozo completo de suas faculdades quando estiver entre os homens o Regenerador, Espírito que desempenhará a missão superior de conduzir a humanidade ao estado de inocência, isto é: ao grau de perfeição a que ela tem de chegar. Até lá, obterão somente fatos isolados, estranhos à ordem comum dos fatos. [...] Não nos cabe fixar de antemão a época em que tal se verificará. [...] O chefe da Igreja católica, nessa época em que esse qualificativo terá a sua verdadeira significação, pois que ela estará em via de tornar-se universal, como sendo a Igreja do Cristo, o chefe da Igreja católica, dizemos, será um dos principais pilares do edifício. Quando o virdes, cheio de humildade, cingido de uma corda e trazendo na mão o cajado do viajante, podereis dizer: Começam a despontar os rebentos da figueira; vem próximo o estio. [...] Debaixo da influência e da direção do Regenerador, caminhará o chefe da Igreja católica, a qual, repetimos, será então católica na legítima acepção deste termo, pois que estará em via de tornar-se universal, como sendo a Igreja do Cristo”. (Os Quatro Evangelhos, 3.º vol., n. 196, pp. 65-66.)

Os fenômenos mediúnicos, perfeitamente integrados à ordem natural das coisas pelo Espiritismo, são apresentados, então, como “fatos isolados, estranhos à ordem comum”... No que respeita ao chefe da Igreja católica — que alguns rustenistas, em verdadeiras ginásticas de retórica, afirmam não se tratar do Papa —; quanto ao Regenerador, melhor eu não dizer nada... E é esta obra que a F.E.B. considera, em seu estatuto, uma subsidiária da codificação de Kardec...

Capítulo 15

UM DOCUMENTO NORMATIVO FEBIANO

O texto “Esclarecimento da Federação Espírita Brasileira ao Movimento Espírita”, publicado na Revista Reformador de maio de 1995, pp. 131 a 133, assinado pelo presidente da F.E.B. à época, Juvanir Borges de Souza, chegou à condição de Documento Normativo no site daquela Federação. É dito ali que a F.E.B. “tem sido alvo de tentativa de envolvimento em polêmicas que nenhum benefício trazem ao movimento espírita e só atendem ao interesse dos que procuram retardar a difusão do Espiritismo”, e que, “guardando o natural respeito aos que pensam e agem de forma diferente, ela não pretende ceder às tentações da polêmica”; “sente-se, todavia, no dever de prestar os esclarecimentos que entende necessários a todos os que se empenham, com sinceridade e dedicação, na nobre tarefa de difundir, estudar e praticar a doutrina espírita em toda a sua amplitude”. Como parte integrante dos pretendidos esclarecimentos, lê-se:

[...] a F.E.B. procura pautar as suas atividades dentro dos princípios que a doutrina espírita oferece, reconhecendo o Evangelho como a expressão mais pura da lei de Deus, roteiro moral para a Humanidade, e Jesus como o modelo e guia para todos os homens, independentemente das características do corpo por ele utilizado para conviver com os homens. Isto porque, não se constituindo em ponto básico da doutrina espírita a aceitação ou não das teorias que tratam deste assunto, dependente ainda de comprovação que deverá ocorrer com a evolução da Humanidade, representam uma questão de foro íntimo de cada adepto, sem nenhum prejuízo para o estudo ou a prática da doutrina.

Lamentável já é considerar a doutrina rustenista do Jesus agênere como algo inserto numa possibilidade de “comprovação que deverá ocorrer com a evolução da Humanidade”, tanto mais que este vislumbre seja apresentado aos espíritas com força de “documento normativo”; constituindo, pois, “norma” para o nosso movimento. Além disto, por que tanto escrúpulo em “ceder às tentações da polêmica”? E quanto à posição do codificador? Este considerava útil a polêmica se constituísse discussão séria dos princípios doutrinários. (Revista Espírita. Novembro/1858. Polêmica Espírita.)

A dificuldade para a Federação Espírita Brasileira, contudo, é que a discussão séria dos princípios professados por Kardec só pode deixar o rustenismo por ela divulgado como pivô de constrangimentos inomináveis. Esta questão não pode ser dirimida no “foro íntimo” de cada adepto, pois exige, na verdade, o esclarecimento de problemas conceituais e históricos graves demais, e que envolvem, sim, os “pontos básicos da doutrina”, com sérios prejuízos para seu estudo e sua prática. Ou será que a reencarnação, necessidade evolutiva, e não castigo a falidos, não constitui mais ponto básico do Espiritismo?

Diz-se que a F.E.B. se aplicou na edição dos livros kardecianos, mais de 7.500.000 de exemplares editados até 1995. Sem dúvida. Mas, como visto no cap. 9, este trabalho de tradução reclama que se ponham a descoberto algumas infidelidades deliberadamente cometidas em relação aos originais franceses. E em nome de que ocorreram algumas dessas deturpações? Do rustenismo e do ubaldismo professados pelo tradutor, que os julgava superiores à codificação kardeciana. As novas traduções, é certo, têm corrigido tais erros, mas são postas à venda com as que ainda os propagam. Trata-se de uma ambivalência sem desculpas.

Esclarecer abertamente estas e outras questões — quem sabe com um pedido de desculpas ao movimento espírita (afinal até o Papa João Paulo II o fez, por motivos mais sérios e a toda a Humanidade) — é bem mais próprio a que a F.E.B. cative o respeito e a possível adesão de “todos aqueles que se empenham, com sinceridade e dedicação, na nobre tarefa de difundir, estudar e praticar a doutrina espírita em toda a sua amplitude”, os quais, certamente, não querem “retardar a difusão do Espiritismo” e sim, melhor qualificá-la, vinculando-a ao máximo grau possível de responsabilidade conceitual e histórica.

Capítulo 16

UMA GRAVE CONSTATAÇÃO

Bem se vê quanto estamos distantes, encarnados e desencarnados, da estrada segura percorrida pelo codificador e pelos Espíritos superiores que sempre o assistiram e orientaram. Encontramo-nos enveredados nos atalhos escuros em que nosso orgulho e egoísmo nos embrenharam, fantasiados de humildade e temperança.

O rustenismo não é uma simples divergência. Não se restringe ao problema da natureza do corpo de Jesus. Trata-se de uma dissidência, porque se considerou uma superação da obra kardeciana. Corretas foram, portanto, a constatação e a exortação do nosso Herculano Pires, atualíssimas:

O silêncio estabelecido pelo “Pacto Áureo” deu resultados negativos, pois toda uma geração de espíritas se formou nesse período e agora está sendo colhida de surpresa pela “novidade” do roustainguismo [...]; é necessário que os espíritas sinceros não se calem; é preciso dizer, alto e bom som, nas palestras e conferências, nos artigos e nos livros, a verdade sobre a obra de Roustaing. [...] É dever dos espíritas sinceros combater a mistificação roustainguista neste alvorecer da Era Espírita no Brasil. Ou arrancamos o joio da seara ou seremos coniventes na deturpação doutrinária que continua maliciosamente a ser feita. (O Verbo e a Carne. O Roustainguismo à Luz dos Textos. XII.)

Sobre o que, pelos jornais da época, Artur Lins de Vasconcelos Lopes batizou de “Pacto Áureo” (05/10/1949) e J. Herculano Pires, mais acertadamente, definiu como “bula papalina”, “primeira eclosão dos instintos vaticânicos”, leia-se o capítulo 9 da biografia J. Herculano Pires, o Apóstolo de Kardec, escrita por Jorge Rizzini, desencarnado aos 17/10/2008. Trata-se da história real de uma manobra política que mudou os rumos da expansão do Espiritismo no Brasil, atrelando-o de vez ao “jugo da carne”, como disse Herculano.

Prevendo o surgimento de seitas e cismas, Kardec, já no final de sua carreira, quis criar uma Constituição para o Espiritismo, o que o levou a declarar:

Para assegurar-se, no futuro, a unidade, uma condição se faz indispensável: que todas as partes do conjunto da doutrina sejam determinadas com precisão e clareza, sem que coisa alguma fique imprecisa. Para isso, procedemos de maneira que os nossos escritos não se prestem a interpretações contraditórias e cuidaremos de que assim aconteça sempre. [...] seitas poderão formar-se ao lado da doutrina, seitas que não lhe adotem os princípios ou todos os princípios, porém não dentro da doutrina, por efeito de interpretação dos textos. [...] Tomando a iniciativa da constituição do Espiritismo, usamos de um direito comum, o que todo homem tem de completar, como o entender, a obra que haja começado e de ser juiz da oportunidade. Desde o instante em que cada um é livre de aderir ou não a essa obra, ninguém se pode queixar de sofrer uma pressão arbitrária. Criamos a palavra Espiritismo, para atender às necessidades da causa; temos, pois, o direito de lhe determinar as aplicações e de definir as qualidades e as crenças do verdadeiro espírita. [...] Se a constituição tem por efeito diminuir momentaneamente o número aparente dos espíritas, terá, por outro lado, como consequência, dar mais força aos que caminharem de comum acordo para a realização do grande objetivo humanitário que o Espiritismo há de alcançar. Eles se conhecerão e se estenderão mutuamente as mãos, de um extremo a outro do mundo. (Obras Póstumas. Segunda parte. Constituição do Espiritismo. II e X.)

Segundo o codificador do Espiritismo, o que deve importar ao movimento espírita é a qualidade, não a quantidade dos adeptos. Logo, só a obra de Allan Kardec, estudada, respeitada, sincera e fielmente divulgada, pode dar-nos uma legítima Unificação Espírita. Rustenismo, ubaldismo, ramatisismo e quejandos representam, conforme previu Kardec, seitas que se formaram “ao lado da doutrina, porém não dentro da doutrina”. Trata-se de espiritualismos, não de Espiritismo.

Como pode ser, então, que instituições não-espíritas integrem hoje os Conselhos de Unificação? Será que alguns dirigentes resolveram pôr em prática o ecletismo rustenista, ensaiando a fusão forçada dos diversos cultos num novo elebevismo? Se o rustenismo continuar estatutário na F.E.B., tais condutas serão sempre legítimas, porque estarão abrigadas por esse verdadeiro Cavalo de Troia jurídico.

Capítulo 17

NÃO NOS DEVEMOS CALAR

Fica-me o lamento por doutrinas destoantes da codificação kardeciana encontrarem respaldo na invigilância do movimento espírita. Mas, ao contrário do que aconteceu aos ingênuos troianos, podemos evitar que estas doutrinas mais estendam sua influência nefasta e terminem diluindo o Espiritismo no Espiritualismo.

Kardec entendia que o conflito de opiniões é “consequência inevitável do movimento que se opera”. O mestre dizia que estes embates “são mesmo necessários para maior realce da verdade”. Ao contrário da apatia que se propaga como conduta exemplar ante as divergências e mesmo dissidências, o codificador preconizava, sobre os conflitos de opiniões, que “convém se produzam desde logo, para que as ideias falsas prontamente sejam postas de lado”.

Piedoso, o mestre ainda encontrava ensejo de consolar os vacilantes, afiançando aos “espíritas que a esse respeito alimentem qualquer temor” que “podem ficar perfeitamente tranquilos”, pois “todas as pretensões insuladas cairão, pela força mesma das coisas, diante do enorme e poderoso critério da concordância universal”. (Cf. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Introdução, II.)

Alguns poucos, encarnados e desencarnados, querem impor-se, no entanto, à opinião da maioria, e fazem ouvidos moucos às melhores instruções kardecianas, esforçando-se em cumprir a profecia que a este respeito foi dirigida a Kardec pelo Espírito de Verdade: “As tuas melhores instruções serão desprezadas e falseadas”. (Obras Póstumas. 12/06/1856.)

O perigo está justamente em o rustenismo não ser hoje uma influência direta e pronunciada, mas preparada pelo silêncio estrategicamente estimulado por uma política igrejeira que se justifica na antimoral da hipocrisia, simulando oração e vigilância pela fraternidade quando só leva ao pecado por omissão.

Deste modo é que muitos esforços de deturpação do genuíno pensamento espírita hão obtido êxito. Sem encontrarem resistência, reproduzem, no todo ou em parte, as mesmas desorientações da “escola” de Roustaing, fomentadora do primeiro cisma no movimento espírita, cujos ecos ainda ressoam, fruindo da vantagem de que não se sabe, na maioria das vezes, de onde eles vêm.

Capítulo 18

O RUSTENISMO E O ESPIRITISMO LAICO

Interessante notar que até a proposta pan-americana de um Espiritismo laico, não cristão, não religioso, encontra nalguns protoargumentos do rustenismo paridade de metas... Também os partidários de Roustaing, com ares de superioridade catedrática, diziam que o Espiritismo deveria “aceitar tudo o que seja ensinado pelos métodos racionais de investigação; tudo o que seja prático e esteja maduramente estudado; tudo o que, em outras circunstâncias, tenha sido experimentado”.

Como se assim não fosse... O mestre lionês deixou abertas as portas do Espiritismo ao futuro. No entanto, Kardec não tramou, com isto, a subserviência da doutrina ao academicismo materialista. Ao demais, há que respeitar o que recomendou Erasto: “Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea”. (O Livro dos Médiuns, 230.)

O Consolador não teria emergido a contento dos fatos espíritas caso nascesse presa das oscilações do jogo infindável de hipóteses da ciência convencional, cujos pressupostos a tornam, até hoje, “incompetente para se pronunciar na questão do Espiritismo”. A ciência materialista insiste em ignorar que, a respeito das fenomenologias espíritas, “as observações não podem ser feitas da mesma forma; requerem condições especiais e outro ponto de partida”; e não admite que “querer submetê-las aos processos comuns de investigação é estabelecer analogias que não existem”. (Cf. KARDEC. O Livro dos Espíritos. Introdução, VII.)

Imaginem com que equilíbrio, lucidez e, sobretudo, coragem Kardec teve de proclamar tudo isto. Certamente, estava na plena posse do gênio, da criatividade e da ousadia ímpares do pioneiro que fundava o definitivo paradigma do espírito em nossa Civilização.

Capítulo 19

O ESPIRITISMO ESOTÉRICO

O que pensar das propostas de um Espiritismo esotérico, de feição new age, diluído no chamado “livre pensamento espiritualista”? Mas livre de quê, afinal? De toda lógica, de todo rigor; mesmo porque este “livre” pensamento não passa, o mais das vezes, de ressurreição dos residuais míticos, místicos e mágicos do passado ancestral.

Esta, a razão de nosso Herculano Pires haver lembrado que a intensa e comovente batalha de Léon Denis, na França e em toda a Europa, foi contra as infiltrações de doutrinas estranhas, de espiritualismos rebarbativos, no meio espírita, para mostrar que o Espiritismo é uma nova concepção do homem e da vida, que não se pode confundir com as escolas espiritualistas ancestrais, carregadas de superstições e princípios individualmente afirmados, ou provindos de tradições longínquas, sem nenhuma base de critério científico. (Cf. O Espírito e o Tempo. 4.ª Parte, cap. III, item 5.)

Acerca da mais cara das concepções do ocultismo, a dos sete corpos, disse o nosso querido ex-teósofo:

A concepção espírita do homem, como unidade trina, tanto se opõe ao dualismo religioso quanto ao monismo materialista e ao pluralismo ocultista. Não obstante, como essa concepção é uma síntese estética, nela encontramos os elementos opostos reduzidos ao equilíbrio da fusão. Assim, quando Kardec define a alma como sendo o espírito encarnado, temos a dualidade alma-corpo; quando define o corpo como produção ou projeção do próprio espírito, temos o monismo; e quando define o espírito como entidade independente, possuindo as diversas funções da consciência e sendo capaz de projetá-las por várias maneiras, no plano espiritual e no plano material, temos o pluralismo. Os vários corpos da concepção septenária do ocultismo apresentam-se como simples peças do mecanismo de manifestação do espírito.

As pessoas que consideram simplista a concepção trinária do homem, e preferem a septenária, tendem para o pluralismo afetivo. As que, ao contrário, a consideram complexa, e preferem a concepção monista, de tipo heckeliano ou marxista, tendem para o monismo materialista. O homem trino é, portanto, uma concepção típica do Espiritismo, resultante da síntese dialética que se processou no desenvolvimento histórico da humanidade. Uma concepção que assinala a maturidade espiritual do homem, pois apresenta a superação das fases de sincretismo afetivo e de egocentrismo racional, tanto existentes no indivíduo quanto na espécie. (PIRES. O Espírito e o Tempo, 3.ª Parte, cap. I, item 2.)

Ante a mais completa ignorância geral destes tão vastos alcances da doutrina, Herculano dizia mais: que a passividade da massa espírita, anestesiada pelo sonho da salvação pessoal, do valor mágico da tolerância bastarda, da crença ingênua do valor sobrenatural das esmolas pífias, vai minando em silêncio o legado de Kardec. (Cf. O Espírito e o Tempo. 4.ª Parte, cap. III, item 5.) Corajoso, o filósofo de Avaré assegurava ainda que o medo do pecado que sai da boca, da pena ou das teclas é que faz desaparecer do meio espírita o diálogo do passado recente, substituindo o coro dos debates pelo silêncio místico das bocas-de-siri. Para Herculano, ninguém fala para não pecar e peca por não falar, por não espantar pelo menos com um grito as aves daninhas e agoureiras que destroem a seara. (Cf. Ob. cit. 4.ª Parte, cap. III, item 5.)

E sobre os periódicos espíritas, afirmava o ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo:

A imprensa espírita, que devia ser uma labareda, é um foco de infestação, semeando as mistificações de Roustaing, Ramatis e outras, ou chovendo no molhado com a repetição cansativa de velhos e surrados slogans [...]. (PIRES. Espírito e o Tempo. 4.ª Parte, cap. III, item 5.)

Por força da acertada referência de Herculano, assim como foram vistas as principais estranhezas da doutrina rustenista, eis aqui abaixo algo sobre as estranhezas do ensino de Ramatis; aliás, dissecado de forma definitiva no livro Ramatis: Sábio ou Pseudossábio?, do Prof. Artur Felipe de Azevedo Ferreira.

1.º Influência astrológica na vida e no destino dos homens, sendo que o próprio Jesus só pôde “baixar” à Terra, segundo Ramatis, “sob a influência do magnetismo suave do signo de Peixes”, para “estabelecer um novo código espiritual de libertação dos terrícolas”. (O Sublime Peregrino, p. 32.)

2.º Jesus aprendeu com as doutrinas dos essênios, os quais estão, segundo Ramatis, reencarnando para “organizar elevada confraria de disciplina esotérica em operosa atividade no mundo profano, para a revivescência do cristianismo nas suas bases milenárias”. (O Sublime Peregrino, p. 278 e 294.)

O Espiritismo, portanto, teria falhado. Estaríamos a depender destes confrades de disciplina esotérica, mas — pasmem — em operosa atividade no mundo profano... Tomara que tanta operosidade não se traduza em serviço a dois senhores.

3.º Invertendo a ordem natural das coisas, Ramatis afirma que o Espiritismo vai “parar no tempo e no espaço caso seus adeptos ignorem deliberadamente o progresso e a experiência de outras seitas e doutrinas vinculadas à fonte original e inesgotável do espiritualismo oriental”. (A Vida Humana e o Espírito Imortal, p. 276.)

Inesgotável? Ora! Por que os Espíritos não instituíram o Espiritismo na China, ou na Índia, ou no Japão, ou no Oriente médio? Por que os Espíritos que viveram naquelas regiões orientais não fizeram o que O Espírito de Verdade e sua milícia celeste realizaram na França? Este último afirmou: “Como um ceifeiro, reuni em feixes o bem esparso pela Humanidade e disse: — Vinde a mim, todos vós que sofreis”. (O Evangelho Segundo o Espiritismo. VI, 5). Ou seja, a doutrina de Jesus era uma síntese superadora de tudo o que de melhor já havia acontecido, viabilizando o indivíduo, a democracia e a emancipação da mulher, glórias do Ocidente. O mundo evoluiu rumo ao Oeste! Devemos agora aviar-nos pela contramão? Vinho novo em odre velho?

4.º Incensos e defumadores, segundo Ramatis, são eficazes, pois funcionam como “detonadores de miasmas astralinos”. (Magia de Redenção.) Sem comentários... Leia-se o cap. XIV de A Gênese.

5.º Como registradas igualmente em Roustaing, há em Ramatis a presença de mensagens atemorizantes, cuja fixação absurda de datas se revelou totalmente quimérica; afinal, o mundo sobreviveu ao ano de 1999. (Mensagens do Astral.) Sem comentários... Leiam-se os caps. XVII e XVIII de A Gênese.

6.º Esdrúxula profecia de um presidente brasileiro que elevaria o nível de espiritualidade do povo... Em 1970, o tal já havia percorrido, segundo Ramatis, “metade do caminho rumo ao cargo supremo do País”. (A Vida Humana e o Espírito Imortal, p. 298.) Que bom seria se fosse verdade!

7.º Referência a naves marcianas “ultravelozes”, vindas de um planeta cuja geografia já se provou ser inteiramente diversa da que fora descrita pelo Espírito Ramatis e, além disto, sem nenhum vestígio das raças físicas que este afirmara lá viverem. (A Vida no Planeta Marte e os Discos Voadores.) Excesso, por certo, de ficção científica e de teorias conspiratórias.

8.º Jesus não seria o Cristo, mas um anjo encarnado para ser seu médium. Este outro Espírito, mais elevado que o Messias de Nazaré, é que seria, segundo Ramatis, o cristo planetário, inferior, por sua vez, a outros cristos mais evoluídos, o solar, o galáctico, etc. (O Sublime Peregrino, p. 62.)

O fato é que, enquanto o cientificismo e o religiosismo não se entendem, o sincretismo vai sobrevivendo no movimento espírita, à sombra da estrutura conceitual da codificação kardeciana, à custa de aviltá-la quanto possa, simulando uma compatibilidade fictícia, como no caso do ramatisismo, para o qual também nos advertia Herculano Pires:

Além das confusões habituais entre Umbanda e Espiritismo, Esoterismo, Teosofia, Ocultismo e Espiritismo, há outras formas de confusão que vêm sendo amplamente espalhadas no meio espírita. São as confusões de origem mediúnica, oriundas de comunicações de Espíritos que se apresentam como grandes instrutores, dando sempre respostas e informações sobre todas as questões que lhes forem propostas. Um exemplo marcante é o de Ramatis, cujas mensagens vêm sendo fartamente distribuídas. Qualquer estudioso da doutrina percebe logo que se trata de um Espírito pseudossábio, segundo a “escala espírita” de Kardec. Não obstante, suas mensagens estão assumindo o papel de sucedâneos das obras doutrinárias, levando até mesmo oradores espíritas a fazerem afirmações ridículas em suas palestras, com evidente prejuízo para o bom conceito do movimento espírita.

Não é de hoje que existem mensagens dessa espécie. Desde todos os tempos, Espíritos mistificadores, os falsos profetas da erraticidade, como dizia Kardec, e Espíritos pseudossábios, que se julgam grandes missionários, trabalham, consciente ou inconscientemente, na ingrata tarefa de ridicularizar o Espiritismo. Mas a responsabilidade dos que aceitam e divulgam essas mensagens não é menor do que a dos Espíritos que as transmitem. Por isso mesmo, é necessário que os confrades esclarecidos não cruzem os braços diante dessas ondas de perturbação, procurando abrir os olhos dos que facilmente se deixam levar por elas.

O Espiritismo é uma doutrina de bom-senso, de equilíbrio, de esclarecimento positivo dos problemas espirituais, e não de hipóteses sem base ou de suposições imaginosas. As linhas seguras da doutrina estão na codificação kardeciana. Não devemos nos esquecer de que a codificação representa o cumprimento da promessa evangélica do Consolador, que veio na hora precisa. Deixar de lado a codificação, para aceitar novidades confusas, é simples temeridade. Tanto mais quando essas novidades, como no caso de Ramatis, são mais velhas do que a própria codificação. (O Infinito e o Finito. 36. Cuidado dos dirigentes de centros em face das confusões doutrinárias.)

Capítulo 20

VOLTEMOS A KARDEC

Pergunto ao leitor se não estão de fato ressoando entre nós os ecos daquele primeiro cisma rustenista? Diante disto, vamos continuar renovando o nosso cômodo pedido aos Espíritos e a Deus para que façam pelo Espiritismo o que nós mesmos devemos fazer? Por outra, não são os Espíritos tachados de embusteiros quando se pronunciam sobre assuntos “polêmicos”? A valiosa contribuição que nos poderiam dar para a solução de certas dificuldades não é, ao demais, desencorajada pela ideia, balda de fundamento, de que questões “polêmicas” não devem ser propostas aos Espíritos, sob pena da grande probabilidade de ocorrerem mistificações? Mas e quanto aos critérios que para superar estes escolhos o Espiritismo nos oferece? De nada vale o saber acumulado e metodicamente transmitido pelo mestre de Lyon em suas obras?...

Convém relembrar o n. 287 de O Livro dos Médiuns:

Pensam algumas pessoas ser preferível que todos se abstenham de formular perguntas e que convém esperar o ensino dos Espíritos, sem o provocar. É um erro. Os Espíritos dão, não há dúvida, instruções espontâneas de alto alcance e que errôneo seria desprezar-se. Mas, explicações há que frequentemente se teriam de esperar longo tempo, se não fossem solicitadas. Sem as questões que propusemos, O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns ainda estariam por fazer-se, ou, pelo menos, muito incompletos e sem solução uma imensidade de problemas de grande importância. As questões, longe de terem qualquer inconveniente, são de grandíssima utilidade, do ponto de vista da instrução, quando quem as propõe sabe encerrá-las nos devidos limites.

Têm ainda outra vantagem: a de concorrerem para o desmascaramento dos Espíritos mistificadores que, mais pretensiosos do que sábios, raramente suportam a prova das perguntas feitas com cerrada lógica, por meio das quais o interrogante os leva aos seus últimos redutos. Os Espíritos superiores, como nada têm que temer de semelhante questionário, são os primeiros a provocar explicações, sobre os pontos obscuros. Os outros, ao contrário, receando ter que se haver com antagonistas mais fortes, cuidadosamente as evitam. Por isso mesmo, em geral, recomendam aos médiuns, que eles desejam dominar, e aos quais querem impor suas utopias, se abstenham de toda controvérsia a propósito de seus ensinos. (Rio de Janeiro, F.E.B., 56.ª ed., 1988. Tradução de Guillon Ribeiro.)