Roustaing queria tanto ser lembrado que sofismou ante o insofismável. Por pura pretensão à singularidade, chegou a negar a evidente condição de agênere ao seu Jesus de “corpo fluídico concretizado”.[1] E isto apenas demonstra o fato de os rustenistas serem tão confusos que não se entendem mesmo entre si.
Faz prova desta realidade o Sr. Ismael G. Braga, em Elos Doutrinários. Diz ali que “quem nega que Jesus tenha sido um agênere nega também a codificação kardeciana, não é espírita”. Então, Roustaing e seus discípulos também estão inclusos neste anátema, ou seja, não são espíritas, pois negaram que Jesus tenha sido um agênere, ao preferir a ginástica verbal de que estava “encarnado pelo espírito”, numa “encarnação ou incorporação fluídica”.[2]
Aliás, trata-se, aqui, de mais um plágio rustenista que resultou em desfiguração de outro ensino espírita, contido nas páginas imortais da Revista de Kardec: “Para os espíritos superiores não há mais encarnação material e, consequentemente, não há procriação, pois esta se dá pelo corpo e não pelo Espírito”.[3] Disse-o Kardec, porém, no que respeita à vida desses espíritos nos mundos mais adiantados, não a propósito de sua eventual estada entre nós, quando, por missão, tomam corpos iguais aos nossos.[4]
O fato é que Roustaing tentou dissimular a paridade da sua Revelação com o docetismo, do verbo grego dokéo: “parecer”.[5] Entretanto, ele e seus reveladores é que diziam sobre Jesus que, “para aparecer na terra, era-lhe necessário revestir um corpo de modo a produzir ilusão aos olhos dos homens”.[6] O próprio Gomes Braga, ao demais, assegura em seu livro, p. 148, 3.ª ed., F.E.B.: “Sim, confirmamos, a obra de Roustaing ressuscitou o pensamento fundamental do Docetismo — o corpo fluídico de Jesus”.
Talvez se devesse falar em “neodocetismo”. Esta palavra melhor satisfaria à vaidade de Roustaing e seus discípulos, como faz certo esta ilação: “O movimento é a lei inelutável do progresso. Ficar estacionário é votar-se ao esquecimento e não deixar de si o mais ligeiro traço”.[7] É o que se pode inferir também do que citaram de Michelet:
Um credo se torna uma barreira intransponível, se formulado pela infalibilidade. Tem então vida relativamente curta e não é comumente aceito senão por uma categoria de indivíduos votados à morte, enquanto que a humanidade avança e o perde de vista.[8]
Preocupados estavam, pois, em deixar de si traços à posteridade. Como isto viria a ser possível, todavia, se tudo lhes parecia chancelar a grandeza de Kardec e seu triunfo perene ao lado do Espírito de Verdade? Só lhes restava exortar em falso: “Não nos criemos semelhantes barreiras, ó espíritas, irmãos nossos; caminhemos para diante como homens livres”.[9] Mal sabiam, entretanto, que, ao quererem libertar-se de Kardec, só passariam à história representando o triste papel dos que, primeiramente, tentaram em vão arranhar o imponente monumento à verdade maior do Mestre dos mestres.
O que as pesquisas inglesas e alemães comprovaram foi a existência de agêneres, ou seja, de seres que, mesmo sem ser gerados, podem apresentar-se como se da vitalidade dos encarnados partilhassem. Contudo, não são mais que espíritos desencarnados, cujo perispírito, excepcionalmente, pode-se tornar integralmente tangível, possibilitando, sim, nas palavras de Roustaing, “todas as aparências da vida”.[10]
Entretanto, apesar de todas as semelhanças com a carne, o corpo fluídico concretizado não se destina a efetiva permanência em nossa biosfera. Tais pesquisas apenas constituíram mais provas do poder que tem o Espírito de gerenciar os elementos vitais. Nada além disto. Que fizeram então Roustaing, seus reveladores e discípulos? Recorreram a outro sofisma, um estranho dogma de sua “escola”, produto de mera jogatina de palavras mal tomadas à Revista Espírita.
Enquanto L. Denis e G. Delanne comentaram os resultados das pesquisas posteriores à morte de Kardec de maneira favorável à obra de seu mestre, apresentando os resultados a título de simples corroboração dos volumes kardecianos, Roustaing e seus discípulos se apoderaram destes dados para intentar uma depreciação dos alcances da codificação espírita.
[1] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, pp. 45 e 49.
[2] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, pp. 52 e 55.
[3] Revista Espírita. Jul/1862. Ensinos e Dissertações Espíritas. União Simpática das Almas. Observação.
[4] Kardec diz sobre a encarnação de Superiores: “Quando, por exceção, se encarnam na Terra, é para cumprir uma missão de progresso e então nos oferecem o tipo de perfeição a que a humanidade pode aspirar neste mundo”. (O Livro dos Espíritos, 111.) E assegura sobre a encarnação de Puros: “[...] os espíritos da ordem mais elevada [des Esprits de l'ordre le plus élevé] podem manifestar-se aos habitantes da Terra ou encarnar em missão entre estes”. (A Gênese, XIV, 9.) Cf. ALEIXO. Ensaios da Hora Extrema. Resumo Expositivo Sobre os Puros Espíritos. http://ensaiosdahoraextrema.blogspot.com/2010/05/resumo-expositivo-sobre-os-puros.html
[5] Cf. PASTORINO. Sabedoria do Evangelho. Vol. 3. Jesus Anda Sobre a Água.
[6] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, p. 63.
[7] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, p. 76.
[8] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, p. 74.
[9] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, p. 74.