Capítulo 17: NÃO NOS DEVEMOS CALAR

Fica-me o lamento por doutrinas destoantes da codificação kardeciana encontrarem respaldo na invigilância do movimento espírita. Mas, ao contrário do que aconteceu aos ingênuos troianos, podemos evitar que estas doutrinas mais estendam sua influência nefasta e terminem diluindo o Espiritismo no Espiritualismo.
Kardec entendia que o conflito de opiniões é “consequência inevitável do movimento que se processa”. O mestre dizia que estes embates “são mesmo necessários, para melhor fazer ressaltar a verdade”. Ao contrário da apatia de matriz chiquista, que se propaga como conduta exemplar ante as divergências e mesmo dissidências, o Codificador preconizava, sobre os conflitos de opiniões, que “é também útil que eles surjam no começo, para que as ideias falsas sejam mais rapidamente desgastadas”.
Piedoso, o mestre ainda consola os vacilantes, dizendo aos “espíritas que revelam alguns temores” que “devem ficar tranquilos”, pois “todas as pretensões isoladas cairão, pela força mesma das coisas, diante do grande e poderoso criterium do controle universal”.[1] Alguns poucos, encarnados e desencarnados, querem impor-se, no entanto, ao ensino concordante dos espíritos, e fazem ouvidos moucos às melhores recomendações kardecianas, esforçando-se em cumprir a profecia que a este respeito foi dirigida a Kardec pelo Espírito de Verdade: “As tuas melhores instruções serão desprezadas e falseadas”.[2]
O perigo está justamente em o rustenismo não ser hoje uma influência direta e pronunciada, mas preparada pelo silêncio estrategicamente estimulado por uma política igrejeira que se justifica na antimoral da hipocrisia, simulando oração e vigilância pela fraternidade quando só leva ao pecado por omissão.
Deste modo é que muitos esforços de deturpação do genuíno pensamento espírita hão obtido êxito. Sem encontrarem resistência, reproduzem, no todo ou em parte, as mesmas desorientações da “escola” de Roustaing, fomentadora do primeiro cisma no movimento espírita, cujos ecos, portanto, ainda ressoam, fruindo da vantagem de que não se sabe, na maioria das vezes, de onde eles vêm.



[1] Cf. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Introdução, II.
[2] Obras Póstumas. 12/06/1856.