Nas páginas suprimidas do prefácio de Os Quatro Evangelhos, de 1920, Roustaing e seus discípulos acusam, com ironia e desdém, o Codificador de ser o “chefe”, o “mestre” de um “espiritismo de fantasia”, uma “igrejinha com seus corrilhos, entregue a lutas liliputianas”.[1] Data venia, o “jurisconsulto sábio e profundo, advogado poderoso pela sua dialética e pela atração de sua eloquência”,[2] como se referem a Roustaing os seus discípulos, é que afirmou estar a pretendida Revelação da Revelação destinada “a criar a base e os fundamentos da igreja una e universal do Cristo para a era nova”.[3] Foi Roustaing que, no vocativo de sua carta a Kardec, utilizou as expressões “Mon cher monsieur et très honoré chef Spirite”.[4]
Não se pode discordar dos discípulos do advogado bordelês quando dizem que este era dono de “um coração simples” e de um “espírito humilde”,[5] porque chegou a afirmar que sua própria obra precedia e preparava — imaginem — “o novo advento do Messias”, o qual viria “para sancionar a verdade e mostrá-la sem véus”;[6] afinal, haviam ensinado os guias rustenistas:
Por que a Jesus [...] seria impossível materializar [...] um corpo perispirítico tangível com as faculdades aparentes do homem, as fases aparentes do seu desenvolvimento? Este fato, único até hoje nos anais do vosso planeta, se produzirá de novo, quando o tempo for chegado. Então, melhor o compreenderão os homens [...].[7]
Nem a posse, portanto, de “uma ciência e uma erudição excepcionais”[8] puderam evitar que o jurisconsulto bordelês professasse uma crença desculpável apenas ao estado medieval de analfabetismo. E foi este homem que se dirigiu à “escola” de Kardec para exortá-la à “instrução” e à “educação”; para concitá-la à renúncia de suas “momices” e “superstições”.[9] Sim, este homem que pretendia viável a “fusão” de catolicismo, protestantismo, judaísmo, islamismo, bramanismo e budismo com “a religião dos selvagens e das tribos”.[10]
Desconhecendo por completo o alcance de O Livro dos Espíritos já desde o seu primeiro questionamento, Roustaing assegurou ainda que Os Quatro Evangelhos era a publicação “abridora da fase teológica”, “o primeiro plano da obra do Espírito da Verdade, preparatória da era nova, cujo início ela marca”.[11] Se os volumes rustenistas eram considerados, pois, este “primeiro plano”, este marco inicial da “fase teológica” e da era nova, a intenção de ignorar e até de substituir a obra kardeciana é mais que evidente.
Isto se confirma igualmente quando os discípulos de Roustaing ressaltam que seu mestre — pasmem —, “mau grado às injustiças que de Kardec recebera”, sempre o “considerou como o verdadeiro fundador da Doutrina Espírita”.[12] Como se houvesse alguma dúvida sobre quem era o fundador do Espiritismo e Roustaing, ou qualquer outro, tivesse realizado algo que pudesse suscitar esta incerteza.
Fica patente a rivalidade, a exagerada conta em que Roustaing e seus discípulos tinham sua própria “escola”, supostamente tão superior à de Kardec a ponto de poder substituí-la. Àquele momento, o cisma rustenista era confesso. Proclamavam: “Nessa época, em que Allan Kardec intentava erigir o seu sistema de verificação universal, havia cismas e cismas há atualmente. É a lei do livre-arbítrio e ninguém tem o poder de impedir que os cismas se produzam”.[13]
Não se tratava, portanto, de uma ocasional divergência, mas de uma funda dissidência, cujo “dever”, segundo entendiam Roustaing e seus discípulos, era o de “criar o livre pensamento espiritualista”.[14] Foi assim que chegaram a lançar à obra de Kardec a pecha de “espiritismo de fantasia”, acusando-a de pretender “nivelar todas as inteligências e ligá-las ao mesmo dogma”.[15] Claro que nunca deram ouvidos ao que o Espírito Santo Agostinho disse certa feita sobre Kardec e o Espiritismo:
Lembrai-vos de que o Cristo julgou necessário que a sua Igreja se assentasse sobre a própria pedra, a fim de ser sólida, assim como ordena não tenha o Espiritismo senão uma raiz, de modo a penetrar com mais força em toda a superfície do solo, por mais árida e ressecada que seja.
Um Espírito encarnado foi escolhido para vos dirigir, para vos conduzir. Submetei-vos com respeito, não às suas leis, pois ele não ordena, mas aos seus desejos. Por essa submissão provareis aos vossos inimigos que tendes convosco o necessário espírito de disciplina para fazerdes parte da nova cruzada contra o erro e a superstição, o necessário espírito de amor e de obediência para marchardes contra a barbárie. Envolvei-vos, pois, na bandeira da civilização moderna: o Espiritismo sob um só chefe e derrubareis essas ideias pavorosas de frontes chifrudas e de grandes caudas, que é preciso destruir.
Não direi o nome desse chefe; vós o conheceis. Está na frente; marcha sem temor às dentadas venenosas das serpentes e dos répteis da inveja e do ciúme que o cercam; ficará de pé, porque ungimos seu corpo, para que seja sempre sólido e robusto. Segui-o, então.[16]
Mais do que evidente fica o porquê de o mestre lionês, na introdução de A Gênese, assim se ter exprimido:
Sua documentação [de A Gênese] estava pronta, ou pelo menos elaborada há muito tempo, mas o momento de publicá-la ainda não havia chegado. Era preciso, inicialmente, que as ideias que deviam constituir a sua base chegassem à maturidade e, além disso, levar em consideração a oportunidade das circunstâncias. O Espiritismo não tem nem mistérios nem teorias secretas; nele tudo deve ser dito às claras, a fim de que cada um possa julgá-lo com conhecimento de causa, mas cada coisa deve vir a seu tempo, para vir seguramente. Uma solução dada precipitadamente, antes da elucidação completa da questão, seria uma causa mais de atraso que de adiantamento. A importância da causa, na questão que aqui se trata, nos impunha o dever de evitar toda precipitação.
Patenteado está que Kardec se refere ao proceder exclusivista e, por que não dizer, pretensioso de Roustaing. Como dissera o mestre em sua crítica de junho de 1866, o advogado de Bordéus, “em vez de proceder por gradação, quis atingir o fim de um salto”. Segundo Kardec, portanto, Roustaing precipitou-se, gerando “uma causa mais de atraso que de adiantamento” para o Espiritismo.[17]
[1] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, pp. 47, 72 e 73.
[2] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, p. 52.
[3] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, p. 68.
[4] Revista Espírita. Jun/1861. Correspondência.
[5] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, p. 52.
[6] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, p. 69.
[7] Os Quatro Evangelhos. Vol. I, n. 14. F .E.B, 5.ª ed., 1971.
[8] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, p. 52.
[9] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, pp. 72 e 74.
[10] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, p. 69.
[11] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, p. 69.
[12] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, p. 75.
[13] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, p. 72.
[14] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, p. 74.
[15] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, p. 73.
[16] Revista Espírita. Ago/1862. Sociedade Espírita de Constantina.