PREFÁCIO

Allan Kardec, o insigne Codificador do Espiritismo, inspirado nos ditados dos espíritos superiores, por diversas vezes chamou-nos a atenção para o perigo de aceitarmos sem exame o que nos chega do mundo espiritual. Ressaltou, sempre que o pôde, a importância do estudo e do aprofundamento das questões, em nossa incessante busca pela verdade, para que não nos deixássemos levar por concepções fantasiosas e exóticas, sempre oriundas da ignorância acerca das leis naturais que nos regem a todos.
Confirmando este esforço conjunto dos espíritos verdadeiramente comprometidos com o bem e a justiça, o Espírito Erasto, presente à reunião geral dos espíritas de Bordéus — cidade em que o advogado J.-B. Roustaing estava prestes a desenvolver suas estranhas teses —, advertiu acerca da luta que teriam aqueles adeptos do Espiritismo contra uma turba de espíritos inferiores, razão pela qual afirmou ser-lhe obrigação premuni-los contra o perigo.
Da mesma forma, Sergio Aleixo nos brinda com a presente obra, cumprindo com o seu dever de espiritista, preocupado que é, e como todos o devemos ser, com os rumos do movimento espírita no Brasil e no mundo. Deixou corajosamente de lado a postura inerme que predomina em nosso meio, que, a pretexto de caridade, fecha os olhos para os desvios, adulterações e tentativas de ridicularização do Espiritismo.
Munido de dados históricos hauridos em fontes fidedignas, como bom discípulo de J. Herculano Pires, Sergio Aleixo utiliza seu grande poder de observação e análise para mostrar que as teses rustenistas (roustainguistas) aportaram no Brasil, depois de ignoradas na França à época de Kardec, como um autêntico “Cavalo de Troia”, que tem por objetivo provocar a cizânia, o cisma em nossas fileiras, justamente como Erasto, em Bordéus, previra que aconteceria, pela ação de “ditados mentirosos e astuciosos, emanados de uma turba de espíritos enganadores, imperfeitos e maus”.
Nada mais exato, já que, para melhor ludibriarem, os espíritos que se comunicaram com Roustaing, através de uma só médium, Émilie Collignon, valeram-se, em seus ditados, de nomes venerados: os apóstolos de Jesus, Moisés, etc.
Porém, como os prezados leitores poderão observar, foram e ainda são muitos os artifícios utilizados na tentativa de impor aos espíritas toda uma série de conceitos, ideias e teorias que, além de antidoutrinárias, são absurdas e ilógicas, e que, por diversas vezes, se chocam com a razão e o bom-senso.
Este trabalho de Sergio Aleixo é, portanto, de fundamental importância, como mais um alerta que nos chega, para que possamos separar o joio do trigo em matéria de Espiritismo, ajudando-nos, ao demais, a entender como tudo se passou (e passa) e os meios empregados pelos espíritos mistificadores e falsos sábios na tentativa inglória de provocar a derrocada do Espiritismo com enxertias que se vão espraiando pouco a pouco, tal qual erva daninha num jardim de flores.
Aproveitemos todos esta oportunidade de estudo e reflexão, de modo que possamos colaborar para a unidade doutrinária a partir do melhor entendimento do Espiritismo em suas bases sólidas, que se assentam na codificação kardeciana. É seguindo este imperativo que o confrade Sergio Aleixo nos presenteia, mais uma vez, com estudos diligentes e questionadores, que merecem, por parte de todos os espíritas sérios, muita atenção e respeito, a fim de que não nos tornemos pedra de tropeço àquilo que nos é mais caro: o Espiritismo.

Artur Felipe de A. Ferreira*



* Palestrante e escritor espírita. Autor do livro Ramatis: Sábio ou Pseudossábio? Capivari (SP): E.M.E., 1997.